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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Crivella chama Doria de ‘viado’ em apelo a Bolsonaro

Mario Vitor Rodrigues

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“Eu entrei na Justiça contra esses vagabundos. Tinha dinheiro pra pagar aos funcionários, eles pegaram e pagaram fornecedor. Todas essas OSs [Organizações Sociais]… Sabe de quem é essa OS de São Paulo? É do Doria. Viado! Vagabundo!”

Créditos: Wilton Junior/Estadão e Tiago Queiroz/Estadão

O comentário acima foi feito ontem à noite, 18, pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), e explodiu há pouco nas redes sociais. Sua campanha já se apressou em contemporizar: “A fala foi um momento de revolta pela OS reter o salário de médicos e enfermeiros, mesmo tendo recebido da Prefeitura. Em tempos de pandemia, isso pode custar vidas. Marcelo Crivella pede desculpas pelos excessos, e ao governador João Doria”. Em sua conta pessoal no Twitter, o próprio Crivella reproduziu o argumento.

No início desta semana, terça-feira, 17, outro insulto público ganhou as manchetes. O candidato Eduardo Paes (DEM), portelense declarado, esteve na comemoração dos 80 anos de Tia Surica, matriarca da Águia de Madureira. Lá pelas tantas, enquanto se aproximava para presentear a aniversariante, esta, do alto do palco e de microfone em punho, não titubeou: “No segundo (turno) você vai ser o nosso prefeito, Deus é poderoso… aquele filho da puta não pode ganhar!”. Visivelmente constrangido, Paes levou na base da galhofa: “Eu vim aqui te trazer um beijo do Crivella!”. A risada foi geral.

Entre o “aquele filho da puta” da Tia Surica e o “viado” de Marcelo Crivella há uma sensível diferença: o segundo foi proferido pelo prefeito do Rio de Janeiro. Como se isso não bastasse, em ataque ao governador de São Paulo.

Se o rompante se deu no contexto de um aceno para Jair Bolsonaro é irrelevante  (Crivella embarcaria pouco depois para Brasília, onde pretende arrancar mais manifestações de apoio do presidente da República, quem sabe até trazê-lo para uma manifestação pública no Rio).

A primeira pesquisa Ibope olhando para o segundo turno do Rio, divulgada ontem (quarta-feira, 18), aponta para uma liderança folgada de Paes: 53% contra 23%. Crivella e o comando de sua campanha já se habituaram a desdenhar das pesquisas. Com frequência, argumentam que são adotados recortes desfavoráveis e que, portanto, os números apresentados não refletem a sua força.

Para além das narrativas, o prefeito parece estar próximo de ser obrigado a fazer uma dura constatação: sua vitória em 2016 se deu muito mais pelo receio da maioria dos cariocas em ver o PSOL comandando a cidade do que por seus próprios méritos.

Ao que tudo indica, nem a inegável força do lobby religioso — por mais deletério que seja em ambientes que deveriam primar pelo bom debate, por valores democráticos como o laicismo e o combate à homofobia — pode suplantar a reação ao completo abandono de uma cidade solapada pelo descaso.