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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: A condescendência com as ‘birras’ de Bolsonaro

Vera Magalhães

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Muitos pais durante a quarentena relatam dificuldade de domar suas crianças pequenas, com consequentes prejuízos à rotina de home office dada a inquietação e a malcriação dos pequenos. Assisto diariamente a capitulações de amigos e familiares diante desses comportamentos: estendem o horário permitido de videogame, permitem que assistam televisão até tarde, chegam a pressionar as escolas para que peguem mais leve com atividades on-line. Afinal, isso é só uma fase, e logo logo os anjinhos voltarão ao normal. Além disso, eles têm razão de estarem indóceis com um desafio como esse.

O presidente Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro Foto: Evaristo Sá/AFP

O comportamento de militares, do ministro Paulo Guedes, dos chefes dos demais Poderes e de setores do empresariado e do mercado com o presidente Jair Bolsonaro é exatamente o mesmo: um de uma condescendência entre cúmplice e ingênua. Bolsonaro ameaça renomear Alexandre Ramagem, cuja designação foi suspensa pelo STF? Aconselham pacientemente que talvez fosse melhor não fazer isso, mas aceitam a ideia de que ele indique para o comando da Polícia Federal o sub imediato de Ramagem, com propósito idêntico. O presidente resolve espicaçar a secretária de Cultura e nomear de novo para a Funarte o maestro Dante Mantovani, que se notabilizou por dizer que o rock é uma expressão do demônio? O que é que tem? Trata-se de um cargo menor, não vai fazer mal a ninguém.

Bolsonaro incentiva, participa e endossa de atos antidemocráticos e que incitam a violência e o golpe contra as instituições? Esses “pais” cansados da quarentena democrática retorquem com uma pergunta: “Mas vocês acham que ele tentaria um golpe? Acham que as Forças Armadas deixariam?”.

Não dá para saber, sinceramente. E não são essas as perguntas corretas. É aceitável que instituições deixem o presidente ficar acordado até mais tarde e cometer pequenas infrações no contrato que pauta sua atuação, a saber a Constituição, apenas para que ele se acalme e não cause mais distúrbios?

No domingo escrevi na coluna do Estadão que Bolsonaro age como quem almeja a inimputabilidade: esgarça todos os limites, mas não quer que lhe sejam dadas travas. De novo, o comportamento se assemelha ao das crianças, justamente um dos entes considerados inimputáveis para efeito legal.

Condescender com essas pirraças em nome de um crescimento econômico vindouro (quimera que já caiu) ou de uma paz artificial entre os Poderes é permitir que, lá na frente, já “crescido”, Bolsonaro lance mão de expedientes de fato ilegítimos para conseguir o brinquedo quando os “pais” resolverem que já foram bonzinhos em demasia. Já vimos isso acontecer em muitos lares, antes mesmo da quarentena forçada.