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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: A contradição total de Bolsonaro

Vera Magalhães

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Ao desmobilizar, de má-vontade, manifestações que tinha ajudado em vários momentos a convocar, Jair Bolsonaro explicitou aquela que era a última evidência que tentava negar: a de que os atos são, sim, na essência um movimento para pressionar o Congresso.

O chamamento para que apoiadores do governo fossem às ruas no dia 15 veio depois que o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, se queixou da votação da LDO deste ano que levou a que o Congresso passasse a ter a prerrogativa de destinar R$ 30 bilhões de investimentos do Orçamento e chamou os congressistas de “chantagistas” contra os quais as pessoas deveriam ir às ruas protestar.

No carnaval, Bolsonaro distribuiu dois vídeos incentivando as manifestações, como divulguei em primeira mão aqui no BRP. Diante da reação acalorada do STF e do Congresso, o presidente negou que tivesse feito o que fez e, de novo, atacou a imprensa. Para uma semana depois, de viva voz e em viagem oficial, finalmente assumir a defesa da manifestação.

Desde domingo, com o início da crise dos mercados na Ásia e a evidência de que haveria uma escalada dos casos de coronavírus, ele vinha sendo aconselhado por assessores a recomendar a não realização dos atos, mas resistia. Só aceitou nesta quinta-feira, quando a doença chegou ao Palácio do Planalto, com a confirmação da infecção do secretário Fábio Wajngarten e a necessidade de que o próprio Bolsonaro e demais integrantes da comitiva que foi aos EUA fizessem o teste.

E finalmente, quando resolveu cancelar os atos, Bolsonaro admitiu que eles eram o que sempre foram: um “tremendo recado” para o parlamento. E que essas motivações não se extinguem, e devem ser retomadas mais adiante. Ou seja: ao desmobilizar, claramente contrariado, os atos que convocara e mentira que não o fizera, o presidente finalmente assumiu sua estratégia de pressionar o Congresso a partir das ruas permanentemente mobilizadas.