Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Aliança é extensão da casa do clã Bolsonaro

Vera Magalhães

Jair Bolsonaro passou por nove partidos ao longo de sua vida parlamentar e eleitoral e, agora que chegou a bordo de um deles à Presidência, achou por bem criar sua própria legenda à sua imagem e semelhança, replicando seu slogan de campanha, incluindo no estatuto todos os seus temas e colocando nos postos de comando toda a sua família – desta vez, até a primeira-dama, Michele, participou da formulação do estatuto e o filho mais novo, Jair Renan, está na executiva.

Estão lá, no ideário da Aliança pelo Brasil, a defesa dos valores cristãos, como princípio primeiro, da família, do direito à legítima defesa (e ao excludente de ilicitude e ao porte de armas, conexos), o repúdio ao aborto e a um mix de ideologias resumido como comunismo, socialismo, nazi-fascismo e até o tal globalismo, um neologismo de significado vazio, mas que povoa o imaginário olavo-bolsonarista. Também não poderia faltar o repúdio à ideologia de gênero, outro termo eivado de conotação ideológica.

Na economia, os princípios levemente pincelados, com bem menos destaque que o corolário religioso, pregam um liberalismo clássico: defesa da propriedade privada, da livre iniciativa e do trabalho.

Assim, a aliança nasce com um viés ultraconservador na pauta de costumes, política e segurança, e erigindo a bandeira liberal na economia. Como modelos internacionais de inspiração programática foram citadas a Hungria, a Polônia e a Itália, numa demonstração do corte de populismo de direita que vai nortear o ideário aliancista.

O programa defende o resgate da memória das Forças Armadas e uma certa “cooperação entre política e religião”, não claramente definida, mas cuja aplicação pode levar, sim, a que se firam os princípios da laicidade do Estado – e esta observação nada tem a ver com a tosca equiparação entre laicidade e defesa do ateísmo feita pela advogada e agora tesoureira da sigla Karina Kufa, mas sim com a definição de equidade de direitos entre os cidadãos independentemente de credo e da definição de políticas públicas, como nas áreas de saúde e educação, não baseadas em premissas de qualquer religião.

Presidente e o filho Flávio Bolsonaro, anunciado primeiro-vice do partido na convenção de lançamento Foto: Gabriela Biló/Estadão

Bolsonaro estava feliz como há muito não se via. Sumiu o semblante crispado, mesmo nos tradicionais ataques a Wilson Witzel, à Globo e aos “traidores”. Estava em casa, finalmente. Chamou a primeira-dama ao palco para dar literalidade à metáfora que adora utilizar da aliança de casamento com a política, e colocou em seu dedo um segundo anel.

Agora o “capitão” não tem mais por que trocar de partido: ficou claro que quem não for “leal” será expulso da sigla da família Bolsonaro, invertendo-se a lógica. De positivo da longa solenidade o anúncio de que quem for condenado em segunda instância será retirado do partido e de que a sigla adotará regras de transparência e compliance na gestão dos recursos partidários. A conferir e cobrar.