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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: O risco do discurso da ‘ameaça da esquerda’

Vera Magalhães

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É sempre salutar e necessário que os órgãos de inteligência do governo monitorem ameaças ao País, vindas do crime organizado, do tráfico internacional ou de outras ameaças reais. Mas há algo de inquietante quando o presidente da República insta as Forças Armadas a monitorarem uma ameaça indiscriminada, subjetiva e não baseada em nenhum elemento da realidade apenas porque países vizinhos vivem turbulências sociais, sob o pretexto de que elas seriam uma maçaroca só que pode ser traduzida como “ameaça de volta da esquerda“.

O presidente da República Jair Bolsonaro fala à Imprensa

Jair Bolsonaro. Foto: José Dias/PR

Jair Bolsonaro acabou de ser eleito em eleições limpas e democráticas, não contestadas. Exerce seu mandato em plenitude. Os demais Poderes funcionam sem limitações: o Congresso acaba hoje de votar a reforma da Previdência, mais importante projeto do governo, e o STF se debruça sobre a questão da prisão após condenação em segunda instância. Pode-se concordar com uma ou outra tese no caso, mas não se pode questionar a legitimidade da corte constitucional de se manifestar sobre a constitucionalidade de algo que diz respeito diretamente à garantia de direito à presunção de inocência.

Portanto, que o presidente, seus aliados e a milícia digital sempre a postos usem os casos do Chile, da Bolívia, do México e até a possível procedência venezuelana do óleo que tinge as praias do Nordeste há 45 dias sem que se tenha um plano eficaz para retirá-lo como sendo uma manifestação única do vigor do Foro de São Paulo, que mereceria evocar os preceitos constitucionais da garantia da lei e da ordem do artigo 142 da Constituição é flertar com uma paranoia cuja única razão para alimentar é o desejo de tomar medidas mais à frente para conter a tal ameaça fantasma.

O Brasil é uma democracia plena, madura e pujante e não admite mais essa dose de subjetivismo dos Poderes como pretexto para ampliar seu arbítrio. O inquérito-polvo do STF que investiga a tudo e a todos sem prazo para terminar já é uma anomalia ilegal, que não pode ensejar novas aventuras do gênero.