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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Aras contratou um problema para si

Vera Magalhães

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Augusto Aras quis ser muito engenhoso ao pedir, com celeridade extraordinária, no próprio dia 24 de abril em que Sérgio Moro se demitiu, abertura de inquérito para apurar tanto as acusações feitas pelo então ministro da Justiça quanto o próprio denunciante.

O procurador-geral da Republica, Augusto Aras

O procurador-geral da Republica, Augusto Aras Foto: Dida Sampaio/Estadão

Na interpretação de procuradores subordinados a ele, ministros do STF, advogados e políticos, Aras procurou, ali, ao mesmo tempo em que se mostrava diligente e independente, criar uma forma de “melar” a investigação, levando-a para o arquivamento mais à frente. Como em todo cálculo dessa natureza, no entanto, a estratégia embutia alguns riscos. E quis o destino que eles fossem potencializados pelos fatos que se seguiram.

O primeiro deles foi o sorteio do relator. Com o decano Celso de Mello a caminho da aposentadoria compulsória, o inquérito será tratado como a peça de despedida, o canto do cisne, a oportunidade de sair do STF de uma forma histórica. A forma como Mello está conduzindo as investigações não deixa dúvida: ele não quer deixar o inquérito nem para o sucessor indicado por Bolsonaro nem para outro colega, por distribuição. Se esforçará para concluí-lo.

Além disso, o ministro tomou uma decisão “a la Moro” na Lava Jato: levantou o sigilo de absolutamente tudo que diz respeito ao inquérito, desnudando a investigação aos olhos do País e tornando muito mais difícil qualquer tentativa de Aras de delongar o inquérito ou jogar pelo seu arquivamento, aposta corrente em Brasília quanto ao procedimento do PGR.

Não é a primeira vez que um procurador-geral se vê forçado a mudar o curso de suas ações com o bonde em movimento. Rodrigo Janot, em 2015, agia claramente na retranca quando a Lava Jato surgiu. Formou um grupo para se contrapor aos procuradores de Curitiba, teve vários entreveros com eles, se encontrava às escondidas com o então ministro José Eduardo Cardozo, até que foi sendo impelido a se mostrar mais aguerrido e soltou a primeira “lista do Janot”.

Dali para a frente, o Grupo de Trabalho criado por ele se tornou parceiro da força-tarefa de Curitiba, Janot vestiu o personagem do combatente da corrupção, se afastou de Dilma Rousseff e do PT e se manteve no personagem até depois do impeachment, voltando as baterias contra Michel Temer até revelar o episódio bizarro de que foi armado a uma sessão do STF com o intuito, depois abortado, de matar Gilmar Mendes.

Não será fácil para Aras, dado o teor minucioso do depoimento de Moro, pedir o arquivamento do feito. Também não conseguirá acusar o ex-ministro de denunciação caluniosa. Caso tente deixar tudo no zero a zero e arquivar o inquérito, corre grande risco de ver a pretensão negada por Celso de Mello. E diante dos depoimentos e provas que podem aparecer, pode se ver impelido a ter de denunciar o presidente que o indicou fora da lista tríplice e ao qual, até aqui, tem devotado tratamento para lá de complacente.