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por Marcelo de Moraes

Da Vera: As boas notícias que vêm da Bolívia

Vera Magalhães

O fim de semana foi marcado por incertezas quanto às eleições presidenciais na Bolívia. A turbulência política dos últimos 14 meses, desde a anulação do pleito de 2019, fez com que o novo também fosse cercado de dúvidas quanto à sua lisura e à possibilidade de, novamente, o resultado não ser validado.

O ex-ministro da Economia Luis Arce é o candidato do MAS Foto: Juan Karita/AP

As eleições do ano passado foram anuladas depois que a Organização dos Estados Americanos apontou várias suspeitas de fraude. O resultado havia sido mais uma vitória do então presidente Evo Morales, que renunciou ao cargo depois da anulação do pleito.

Neste domingo, os boatos a respeito de novas reviravoltas nas eleições se agravaram depois que o tribunal eleitoral anunciou, já no domingo, que não faria a contagem rápida de votos, o que suscitou a possibilidade de um não-reconhecimento da vantagem do MAS, o partido de Morales, e consequentemente de nova anulação.

Mas a presidente interina do país, Jeanine Añez Chavez, reconheceu na própria noite de domingo a vitória de Luis Arce, ex-ministro da Economia de Morales, afastando a possibilidade de nova crise.

As boas notícias aí são muitas, e não dizem respeito ao resultado da eleição, em si. A primeira é que a situação provisória aberta em 2019 tenha se encerrado, ainda que depois de um ano. A segunda é que um país vizinho supere um período de instabilidade política e enfraquecimento institucional e realize eleições que todos os representantes do estamento burocrático reconheçam como válida.

A terceira é que o MAS tenha deixado de ter em Morales sua única encarnação pública. Arce, que foi ministro do ex-presidente, tem um perfil bastante diferente dele. Em sua campanha, procurou demonstrar certo distanciamento do ex-líder, a quem criticou por ignorar um referendo e se lançar a mais uma reeleição.

Mais um bom sinal é o fato de que a direita boliviana aceite o resultado, sem se valer de teorias conspiratórias que pululavam ao longo da semana passada para tentar melá-lo. Havia boatos inclusive de um golpe militar.

A diversidade de perfis ideológicos entre os candidatos, com a existência de um nome de centro, como o ex-presidente Carlos Mesa, entre os contendores, também mostra que pode estar se criando no continente espaço para a superação da recente polarização entre uma direita reacionária e uma esquerda populista, para o que o perfil de Arce também pode contribuir. A derrota acachapante do candidato de extrema-direita religiosa, num momento em que a associação entre direita e religião se fortalece inclusive no Brasil, se inscreve nesse aspecto da análise.

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