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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Atordoado, Bolsonaro cita até ‘estado de sítio’

Vera Magalhães

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É real e patente no semblante do presidente da República, além de plenamente audível nas janelas de todo o País: a demissão do ministro da Saúde bem avaliado, Luiz Henrique Mandetta, no auge da pandemia do novo coronavírus, é o maior desgaste de Jair Bolsonaro em um ano e três meses de mandato. Ele sentiu o golpe.

O presidente Jair Bolsonaro no pronunciamento desta quinta

O presidente Jair Bolsonaro no pronunciamento desta quinta Foto: Reprodução/TV BrasilGov

Bolsonaro fez uma fala apavorada enquanto os maiores panelaços desde o início do confinamento aconteciam de norte a sul do País, segundo relatos e vídeos em tempo real nas redes sociais. Por mais de 15 minutos, não conseguiu conectar um discurso que mostrasse, afinal, o que será diferente de agora em diante, com Nelson Teich, em relação ao que vinha sendo a política até aqui.

Ele procurou enfatizar que sempre defendeu “igualmente” as vidas e os empregos, como se fossem grandezas comparáveis e os últimos fossem possíveis sem a primeira. Se esquece que todas as suas declarações (gripezinha, resfriadinho, vai morrer gente, paciência, isolar os idosos num canto) foram gravadas, e todas as suas peripécias (manifestação em 15 de março, ida à padaria com direito a assoar o nariz, conselhos de saúde com o tio do churrasquinho na Ceilândia) registrados em som e imagem. Não há narrativa que desmonte tal arsenal produzido deliberadamente por ele mesmo, Bolsonaro.

Foram tantos os malabarismos para explicar por que demitiu o ministro da Saúde bem avaliado em plena pandemia que só ficou mais patente que o motivo foi Mandetta não ter se curvado aos seus caprichos e às suas tentativas de boicotar o combate à pandemia.

Depois de tentar soar conciliador, Bolsonaro foi aos poucos descambado para sua beligerância de sempre: repetiu sua indisposição com o isolamento social, disse que se exageros “por ventura” forem cometidos, a culpa será dos governadores, afirmou que não quer brigar com os outros Poderes, mas que não se pode admitir “ditadura” dessas instâncias e cerceamento ao direito de ir e vir e a outros direitos individuais.

Citou até, de forma bizarra, que cabe ao presidente, e não aos governadores, eventualmente “declarar estado de sítio”, como se regras de distanciamento social pudessem ser em qualquer hipótese ser comparadas a um ato extremo de supressão de liberdades democráticas. Pareceu trair, isso sim, um desejo já incontido.