Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Atos mostram força bolsonarista nas PMs

Vera Magalhães

Exclusivo para assinantes

Um dos saldos mais preocupantes das escaramuças do último fim de semana é a evidência da força do bolsonarismo no interior das Polícias Militares. Desde o motim da PM do Ceará no início do ano, ainda antes da pandemia, tem crescido a infiltração do discurso bolsonarista nessas corporações, e existe um risco real de duplo comando caso a tensão institucional se agrave.

Foto: Taba Benedicto/Estadão

Numa coluna de 23 de fevereiro, intitulada Bolsochavismo, eu já alertava para o risco de criação de uma milícia paraestatal com policiais militares. Há três movimentos combinados atualmente: incentivo às pautas por reajuste salarial, inclusive com greves ilegais, incitação a um louvor patriótico nos policiais, confundido com a necessidade de defesa do presidente, e a decisão de “escancarar” o armamento da população.

O contingente de uma milícia para “resistir” a prefeitos, governadores e opositores do regime seria composto, assim, por policiais militares desgarrados dos comandos estaduais e “cidadãos de bem” fortemente armados e fanatizados, como o grupelho que acampa há semanas em Brasília sob os auspícios da polícia do Distrito Federal.

Algumas evidências do fim de semana reforçam a simpatia das PMs pelo bolsonarismo: a forma como o grupo da militante Sara Winter foi praticamente escoltado pela PM em sua marcha fascista com tochas em direção ao STF e, já nesta segunda-feira, em novo protesto em frente ao Ministério da Justiça, a diferença de pesos e medidas da PM paulista contra os opositores do governo, enquanto uma bolsonarista armada com um taco de beisebol foi gentilmente escoltada e não teve nem o objeto recolhido, e a maquinação de PMs do Rio com bolsonaristas como o deputado Daniel Silveira (PSL) na praia de Copacabana, que resultou na apreensão de bandeiras de opositores depois da ordem do parlamentar, também ele ex-PM.

É importante notar que tanto no Ceará, no motim de janeiro, quanto em São Paulo e no Rio os governadores são adversários políticos do presidente, o que torna a infiltração nas PMs especialmente necessária.

Cabe ao Congresso, ao Ministério Público, ao STF e aos governadores coibir essa infiltração antes que seja tarde e se consolide uma força paramilitar de sustentação do governo para se contrapor a ações dos demais Poderes para fazer cumprir a Constituição. Ninguém poderá se dizer surpreso, porque Bolsonaro está desenhando cada uma das etapas de seu plano, e não está sendo levado a sério.