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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: ‘Áudio do zap’ parece ter pautado fala presidencial

Vera Magalhães

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É estarrecedora a sucessão de ações do presidente Jair Bolsonaro nas últimas horas. Depois de anunciar acordo com governadores com os quais se reuniu remotamente, o presidente fez um pronunciamento à Nação em rede de rádio e televisão e deu outro cavalo de pau na narrativa.

O presidente Jair Bolsonaro durante o pronunciamento da terça

O presidente Jair Bolsonaro durante o pronunciamento da terça Foto: Reprodução/TV BrasilGov

Voltou a classificar a pandemia do novo coronavírus de “gripezinha” e “resfriadinho”, criticou a imprensa por provocar “histeria” com a crise, ironizou a Rede Globo e instou comércio e escolas a retomarem as atividades.

Depois da reação massiva e indignada de todos os setores, de médicos a governadores, Bolsonaro dobrou a aposta: nesta manhã de quarta-feira, postou em suas redes sociais um áudio que parece ter sido encaminhado a um grupo por aplicativo de mensagem como o WhatsApp. A “fonte”, que diz seu primeiro nome de forma inaudível no início da peça, faz uma tradução simultânea da fala de terça-feira do presidente norte-americano Donald Trump dizendo que quer que os Estados Unidos reabram suas atividades até a Páscoa.

O tradutor mente e distorce a fala de Trump. O presidente norte-americano não conclamou o País a reabrir todo o comércio imediatamente. Mesmo se o tivesse feito, não seria atendido: depois da fala do presidente, governadores e prefeitos de várias regiões dos EUA reafirmaram as medidas restritivas de circulação para combater a pandemia, cujo pico nos Estados Unidos ainda não foi atingido, de acordo com epidemiologistas.

Mais: o conselheiro do áudio presidencial diz que a hidroxicloroquina, medicamente para malária cuja eficácia frente ao novo coronavírus ainda não é comprovada, passará a ser usada em todos os hospitais dos Estados Unidos já, o que é mentira. Aconselha os receptores do áudio a “rezar” pelo medicamento e diz que é hora de “lutar de pé” e encarar o “inimigo de frente”, o “inimigo” sendo o vírus de alto potencial de propagação.

Ao postar o áudio em suas contas no YouTube e no Twitter, Bolsonaro postou a frase “O Brasil não pode Parar”, colocou uma foto sua ao lado de Trump e voltou a recomendar a retomada da atividade econômica.

O Twitter passou a adotar a política de remover conteúdos que prejudicam o combate ao novo coronavírus. Fez isso com posts do ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente), do senador Flávio Bolsonaro e do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos.

O áudio levado ao ar pelo presidente tem doses cavalares de desinformação e mistificação. Parte de uma fonte não identificada, não médica e não credenciada. E parece ter sido a inspiração para o pronunciamento da véspera, que, conforme o Estadão informa nesta quarta, foi todo arquitetado por Carlos Bolsonaro e pelo chamado “gabinete do ódio”. Deveria, portanto, ser removido das redes sociais pelas empresas.