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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Auxílio de R$ 300 exigirá costura

Vera Magalhães

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Não é impossível que o Congresso aprove a redução pela metade do auxílio emergencial, de R$ 600 para R$ 300, nos três últimos meses do ano.

Pronunciamento nesta terça-feira, 1, sobre o auxílio emergencial Foto: Reprodução

Uma costura política bem feita, que alinhe a equipe econômica, o Planalto e as cúpulas das duas Casas, pode ter sucesso em convencer os parlamentares de que seria insustentável a manutenção dos R$ 600, com exceções que podiam elevar o benefício a R$ 1.200, por mais um trimestre com as contas públicas já com a língua de fora e a economia dando sinais claros de que o tombo foi grande.

Mas é isso: exigirá que a tal articulação política entre em campo e entenda todas as variáveis na mesa.

São elas:

  1. há uma campanha eleitoral em curso; ela foi deflagrada oficialmente nesta segunda-feira, com o início das convenções partidárias, e parlamentares que são candidatos a prefeito ou apoiam outros que são precisam voltar às suas bases com um discurso crível para os eleitores de por que o governo reduziu à metade a única fonte de renda de muitas famílias nos últimos meses, uma vez que o efeito disso pode ser justamente o inverso do “boost” de popularidade trazido pelo auxílio;
  2. a negociação envolve, necessariamente, um aceno mais concreto de como será o tal Renda Brasil, que estava prometido para a semana passada, foi gongado por Bolsonaro e até agora não se sabe ao certo qual será o valor e de onde sairão os recursos;
  3. também não pode deixar de ser levado em consideração o xadrez sucessão na Câmara e no Senado: afinal, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre levarão a cabo a ideia de se reelegerem, ao arrepio da Constituição? Se o fizerem, terão ou não o apoio, ou ao menos a postura neutra, do Palácio? Isso vai determinar se os dois ajudarão a convencer os deputados ou trabalharão apenas para elevar o valor de R$ 300 de olho nos dividendos eleitorais futuros.

A definição dos R$ 300 mostra um momento de equilíbrio frágil nas relações entre Bolsonaro e Paulo Guedes. O presidente conseguiu arredondar o valor para cima dos R$ 240 ou R$ 270 previstos pelo ministro, mas não para além disso. Pode-se dizer, diante do arranjo, que Guedes segue fazendo mais concessões à política que o chefe pagando tributos à austeridade fiscal. Se esse sinal se mantiver por mais tempo e se acentuar, o equilíbrio pode ser rompido e a situação de Guedes, se tornar insustentável.