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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Bagunça deliberada mina as instituições

Vera Magalhães

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O caos retórico de Jair Bolsonaro, muito se tem discutido, tem método e um objetivo claro: manter atiçada a militância, sobretudo virtual, e fidelizar aqueles quase 30% da população que o apoiam, na esperança de que isso lhe garanta a passagem ao segundo turno em 2022. Enquanto isso, outro caos, de ordem organizacional, vai sendo implementado por um presidente que demonstra ter desprezo a ritos e à independência de órgãos de controle agências reguladoras e instituições autônomas. Isso também tem método, e o objetivo é minar o poder de fiscalização desses organismos.

O que Bolsonaro faz na sucessão da Procuradoria-Geral da República compromete a independência do Ministério Público Federal e leva a uma cadeia de casuísmos e exorbitâncias que atinge não só ele, mas também a atual procuradora-geral, Raquel Dodge. Errática na campanha para ser reconduzida ao posto, que ela preferiu construir a partir de fora do próprio MPF –ao buscar apoio de ministros do STF ao mesmo tempo que se recusava a participar da escolha por lista tríplice– acabou atropelada no processo e perdendo o já cindido apoio interno de que gozava. Resolve, então, preencher cargos de confiança de seu sucessor. Tudo errado, tudo babunçado.

Aparentemente, Bolsonaro desistiu de deixar um interino indefinidamente no cargo, como forma de fazer um “test-drive”, felizmente. Ainda assim, o presidente demonstra desconhecer a independência do MPF ao dizer que quer um PGR “alinhado” e ao inclui-lo entre as peças de xadrez de seu governo. Uma das formas de minar a democracia hoje é levar desordem e imprevisibilidade às instituições, minando-as por dentro. Já são muitos os exemplos de que isso está em curso no Brasil, sob silêncio complacente de juízes, parlamentares e da sociedade.

  • Texto atualizado às 19h

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