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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Bolsonaro e o valor utilitário dos aliados

Vera Magalhães

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A deputada Bia Kicis foi a mais última dos aliados fiéis a Jair Bolsonaro a sentir na pele algo que não é inédito: o presidente não vê aliados como aqueles de quem você recebe e devolve lealdade, mas sim como pessoas em quem circunstancialmente, e de maneira muito volátil, vê um caráter utilitário ao seu projeto de poder.

Deputada federal Bia Kicis Foto: Dida Sampaio

Talvez ela ainda tenha se chocado por ter sido avisada de forma seca, por um despacho no Diário Oficial da União, de que havia sido destituída do posto de vice-líder do governo, que desempenhava com fidelidade canina ao “capitão”, a ponto de topar queimar o filme sendo uma de apenas sete deputados a votar contra mais verbas da Educação. Mas não deveria, se acompanhasse política com a vontade com que posta fake news nas redes sociais.

Vejamos. Já passaram de aliados e descartados em um ano e meio de Bolsonaro no poder Gustavo Bebianno, o general Carlos Alberto Santos Cruz, Luiz Henrique Mandetta, Joice Hasselmann, Major Olímpio, Wilson Witzel e tantos outros. O processo varia. Às vezes começa com a paranoia do presidente ou de um de seus filhos de que aquela pessoa está tramando contra o “capitão”.

Mas muitas vezes é só mesmo uma mudança de planos da família, ou de narrativa, que dita a passagem do aliado para a Sibéria. Foi o caso do general Otavio Rêgo Barros, retirado da função de porta-voz (que, para assumir, deixou a ativa e passou à reserva) e encostado em um cargo na Casa Civil. E, agora, de Bia Kicis, arrancada do posto porque o discurso mudou.

Bolsonaro tentou ao máximo evitar a votação da emenda constitucional que aumentou recursos da União para o Fundeb. O MEC ficou ausente do debate por um ano e meio e, quando o governo entrou, foi com uma proposta improvisada do Ministério da Educação, no fim de semana anterior à votação, e que tentava pegar uma parte dos novos recursos para financiar o Renda Brasil e outras tungas.

Foi derrotado em votações maciças no plenário, depois de ainda tentar adiar a votação (novo recibo de que era CONTRA a proposta). Os mais leais bolsonaristas fizeram questão de deixar lá seu voto contrário. Mas aí alguém soprou no ouvido de Bolsonaro e companhia que deveriam bater bumbo e tentar transformar a votação do Fundeb numa vitória do governo, e não o contrário, como foi.

Só não avisaram os russos, como Bia. Arrancá-la da vice-liderança com direito a humilhação pública atende ao propósito de querer transformar seu voto em algo que ia contra a determinação do governo, e não o contrário, como foi.

Não dá nem para ter pena de que uma das deputadas mais diligentes em assassinar reputações, divulgar desinformação e fake news nas redes seja vítima exatamente do mesmo veneno. Mesmo porque, no caso dela, provavelmente vai buscar uma narrativa para encarar o tombo e seguir firme e forte como linha-auxiliar do bolsonarismo.