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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Bolsonaro finge que não é com ele

Vera Magalhães

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O método já é manjado: um dia depois de atiçar sua tropa de choque contra a imprensa e as instituições, Jair Bolsonaro finge que não é com ele e recua um pouco, enquanto urde novo avanço, sempre rompendo um limite novo.

O presidente Jair Bolsonaro durante manifestação no Planalto no domingo

O presidente Jair Bolsonaro durante manifestação no Planalto no domingo Foto: Eraldo Peres/AP

No domingo, o presidente:

  • ameaçou descumprir uma ordem do Supremo Tribunal Federal, a saber a liminar do ministro Alexandre de Moraes que sustou a nomeação de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal;
  • disse que não aceitaria mais “intervenção” em suas decisões, se referindo ao uso de mecanismos de controle do Executivo previstos na Constituição para serem usados pelos demais Poderes;
  • participou e incentivou novamente manifestações que conclamavam o fechamento do Supremo e do Congresso;
  • assistiu sem repudiar agressão física de seus partidários a profissionais de imprensa que cobriam a manifestação, bem como não repudiou violência da véspera contra profissionais de saúde;
  • deu a entender que contava com respaldo das Forças Armadas para avalizar seus atos e suas ameaças.

Nesta segunda-feira, de novo diante da onda de reação de parlamentares, ministros, entidades como OAB e ABI e da imprensa, Bolsonaro recua. Agora, adotou até o cinismo como retórica: disse que as agressões, se houve, partiram de “infiltrados”, e não de apoiadores seus, a despeito de todo o incentivo oficial para a radicalização e o confronto.

Depois de ameaçar e dizer a aliados que insistiria na nomeação de Ramagem, à revelia da liminar de Moraes, recua, mas só na forma: nomeou para a direção-geral da PF Rolando Alexandre, além de xará o número 2 de Ramagem na estrutura da Abin. “Rolando” acaba sendo sinônimo para “representando” no intento que o presidente espera alcançar com a escolha: ter alguém no comando da PF que o informe de operações e blinde aliados e familiares, como deixou claro Sérgio Moro ao pedir demissão.

Acontece que o morde-assopra com que o presidente vai tentando disfarçar sua investida contra o estado democrático de direito não convence mais. Pesquisas mostram a corrosão de sua popularidade. O Brasil caminha célere para assumir o quarto lugar no mundo em velocidade de disseminação da covid-19, enquanto ocupa a nona posição mundial em mais casos de infectados.

O STF dá mostras de que não se curvará às ameaças e seguirá sua atual postura de barrar qualquer ato impróprio por parte da Presidência.

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