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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Centro, volver?

Vera Magalhães

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Na minha coluna deste domingo eleitoral, no Estadão, escrevi a respeito de um fenômeno dessas eleições municipais: a tendência a um renascimento do centro amplo da política, compreendido da centro-direita à centro-esquerda, depois de esse campo político ter sido humilhado nas urnas em 2018.

Urna eletrônica sendo preparada para as eleições municipais de 2020. Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE

Naquela eleição, a polarização entre Jair Bolsonaro, de extrema-direita, e o PT, que não é de extrema-esquerda, mas que, atingido pelo petrolão e pelo impeachment de Dilma Rousseff, concentrou a rejeição do eleitorado a toda a esquerda e justificou o voto em Bolsonaro, fez com que nomes como Geraldo Alckmin (centro-direita) e Marina Silva (centro-esquerda) tivessem votações de nanicos, sendo que já haviam disputado eleições presidenciais anteriormente.

Diante da Presidência confrontatória de Bolsonaro, da pandemia e da crise econômica, o eleitorado parece ter rapidamente abandonado clamores falsos como o da nova política, da demonização de toda a política, como se ela fosse sinônimo da corrupção revelada pela Lava Jato, e de que um político patrimonialista e fisiológico como Bolsonaro, que colocou a família toda na política e dela fez um patrimônio milionário, fosse colocar “fim à mamata”.

O bom desempenho de nomes que fazem o elogio da política, da composição partidária e da racionalidade administrativa nas pesquisas mostra que o eleitor cansou rapidamente dessa distopia que não encontra amparo em dados, evidências e na prática diária. Tanto que dois governadores eleitos na aba dessa narrativa bolsonarista já foram afastados dos cargos: Carlos Moisés, em Santa Catarina, e Wilson Witzel, no Rio dos Bolsonaro.

E 2022?

A simples constatação de que o centro começa a ser recomposto já provoca uma gritaria nas redes sociais, nos apoiadores desse ou daquele candidato e em setores da academia. Mais do que uma caracterização de ciência política pura a respeito de que nomes se encaixam em cada caixa, da extrema-esquerda à extrema-direita, o que envolve boa dose de simpatia e subjetividade, a questão para 2022 é entender que disposição de candidaturas permitiria superar o bolsonarismo, enquanto movimento reacionário, autoritário e que mina a democracia por dentro no exercício do poder.

O maior enrosco tem sido a presença de Sérgio Moro no tal centro expandido. Esse auê só é possível porque o ex-juiz e ex-ministro extrapolou, sim, alguns limites na condução da Lava Jato. Mas a pergunta é: ele cometeu alguma ilegalidade comprovada? Ainda não há essa constatação, que cabe aos tribunais superiores atestarem.

Também há justificáveis críticas políticas ao fato de Moro, logo depois de ter condenado Lula, ter deixado a magistratura e embarcado no projeto de Bolsonaro. Se isso foi premeditado ou fruto apenas de inépcia política, também está por ser mais bem averiguado pela história.

O fato é que, ao romper, depois de um ano e alguns meses, com Bolsonaro, e de fazê-lo denunciando o presidente por aparelhamento da Polícia Federal, Moro se afastou do reacionarismo que ele representa. Se terá o que apresentar como eventual postulante, se terá sequer relevância como apoiador de algum candidato ou se vai sumir do debate público, graças a suas escolhas infelizes e sua enorme ingenuidade política, ainda veremos ao longo dos próximos dois anos. Mas é incrível o empenho de desde já vetá-lo nesse centro expandido, uma vez que até José Sarney foi aceito num arranjo desse tipo quando se tratava de vencer Paulo Maluf, por exemplo. Mais recentemente, Ciro Gomes teve o apoio de Antonio Carlos Magalhães e o PT de Lula ouvia Delfim Netto como oráculo econômico, embora ninguém pareça se lembrar.

Essas pessoas são de centro? Certamente não. Pessoas com essas características podem ser aceitas num arranjo político, pragmático, de centro visando derrotar um inimigo comum? A meu ver, sim. Mas a depender do grau de purismo do analista, aparentemente não. Eis uma discussão que apenas beneficia dois agentes: Bolsonaro, claro, e o lulopetismo, que, embora esteja se mostrando um fracasso nas urnas pela terceira eleição consecutiva, ainda consegue de forma impressionante pautar o debate e seduzir os ingênuos analistas de Twitter.

 

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