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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Ciência e dados ou tentativa e erro?

Vera Magalhães

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A Prefeitura de São Paulo resolveu começar a tentar achatar a curva da covid-19 na base da tentativa e erro. Há três semanas, uma série de medidas arbitrárias, aleatórias e sem amparo em dados técnicos vem sendo anunciada, para logo em seguida ser revogadas, pelo prefeito Bruno Covas sem efeito prático para conter o aumento da transmissão do novo coronavírus e, no limite, podendo agravá-la.

Prefeitura de São Paulo resolveu começar a tentar achatar a curva da covid-19 na base da tentativa e erro

Prefeitura de São Paulo resolveu começar a tentar achatar a curva da covid-19 na base da tentativa e erro Foto: Felipe Rau/Estadão

O efeito prático é tenebroso. Do ponto de vista político, o improviso joga contra o discurso de Covas e do governador João Doria de tentar se contrapor às ações do governo federal com o argumento de que em São Paulo as decisões são tomadas com base na ciência e nos dados. Não é o que parece.

Primeiramente, Covas anunciou a restrição da circulação em grandes vias da cidade, muitas delas importantes artérias que ligam regiões da cidade e levam, inclusive, a hospitais. Me lembro de assistir ao anúncio da medida na TV e imediatamente dizer: como se vai chegar ao hospital? Não sou médica, motorista de ambulância ou engenheira de tráfego. Imagino que a prefeitura tenha vários desses profissionais à disposição para consultar antes de anunciar uma medida que mexe diretamente com a vida de todos os cidadãos. Resultado: a ideia foi pro lixo antes mesmo de ser posta em prática.

Na semana passada, nova tentativa. E outro erro. Veio a ideia do rodízio radical de carros, para tentar aumentar o distanciamento social. Neste momento, pessoas sozinhas em seus carros são a forma mais inofensiva de deslocamento pela cidade. O problema não é reduzir o tráfego ou a poluição, duas consequências que o rodízio ajuda a atenuar, mas o contato de pessoas e a aglomeração.

Criar um rodízio sem restringir ainda mais a possibilidade de funcionamento de estabelecimentos profissionais não evitaria que as pessoas saíssem. Era óbvio, e não era necessário ser engenheiro de tráfego. Escrevi isso na segunda-feira: revoguem hoje ou amanhã, não esperem uma semana.

Recebi contatos de assessores da prefeitura tentando argumentar que o tráfego tinha sido reduzido. Perguntei: e os trens e ônibus? Na terça da semana passada, a demanda por ônibus aumentara 6%. Esse percentual equivalia a 540 mi viagens, 270 mil passageiros e 1500 ônibus.

Não é preciso ser o Drauzio Varella para prever o tanto de coronavírus no ar que aglomerações desse tipo, promovidas por uma medida ruim (e ainda no segundo dia!) permitiu circular. E ainda assim a medida perdurou uma semana inteira!

Agora a prefeitura anuncia um feriadão prolongado. As escolas municipais mal acabaram de conseguir iniciar uma mal ajambrada substituição para as aulas, depois de um mês de férias no início da pandemia! Um elevado percentual dos alunos não conseguiu ainda fazer login no aplicativo disponibilizado para que as crianças acompanhem as aulas, pois não dispõem de recursos para tal.

Nas escolas privadas, que também se adaptam, ainda que com menos dificuldade, ao ensino à distância, o feriado vai deixar famílias cinco dias com crianças em casa sem fazer nada enquanto os pais tentam trabalhar. Qual o convite? Para que as pessoas deixem a cidade para passar o feriado, é claro. Deve aumentar o fluxo de carros para sítios, condomínios e casas na praia, levando o vírus para passear de graça.

A antecipação dos feriados não faz nenhum sentido como medida de contenção da circulação de pessoas. Mais eficaz seria restringir o funcionamento de bancos, grandes focos de aglomeração de pessoas, e forçar as instituições bancárias a adotarem métodos eficazes de serviços on-line, sob pena de multa.

E fechar radicalmente bares, que sob a desculpa de venda de comida se mantêm abertos e promovem reuniões regadas a cerveja nas calçadas (já que não se pode ficar no interior). Isso é fácil de fiscalizar, desde que a prefeitura esteja mesmo disposta.

A educação já sofrerá um imenso baque com a interrupção das aulas presenciais. O feriadão prolongado só vai desestimular alunos e professores no momento em que começam a se habituar à nova realidade.

Da mesma forma, regiões como a Baixada Santista estão próximas do colapso pela covid-19. Dar cinco dias sem nada para fazer para proprietários de apartamentos fechados nessas cidades é pedir para aumentar o problema para esses prefeitos.

O custo de medidas improvisadas na base do “a gente vê, e se não der certo volta atrás” é o mesmo das declarações irresponsáveis de Bolsonaro: aumento da proliferação do novo coronavírus.

Se São Paulo quer mesmo dizer que se pauta pela ciência, é bom prefeito e governador coordenarem suas ações e pararem de inventar ideias ruins.