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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Ciro, Bolsonaro e Lula na disputa em Fortaleza

Vera Magalhães

Se, como escrevi na minha coluna desta quarta-feira, 4, no Estadão, as eleições municipais em São Paulo e no Rio projetam um caminho para o centro político em 2022, é em Fortaleza que a medição de forças entre os três nomes mais colocados para 2022 até aqui — Jair Bolsonaro, Lula (mesmo inelegível até agora) e Ciro Gomes — se dá de maneira mais explícita.

Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e Lula. Fotos: Taba Benedicto/Estadão, Gabriela Biló/ Estadão

Pesquisa Ibope divulgada nesta terça-feira mostrou a ultrapassagem numérica, já esperada, do candidato José Sarto (PDT), sos rivais Capitão Wagner (Pros) e Luizianne Lins (PT). Pela pesquisa, de fato “saltou” (num trocadilho já gasto com seu nome) de 16% para 29%, enquanto Wagner oscilou de 28% para 27% e Luizianne, de 24% para 23%.

É um triplo empate técnico entre candidatos fortemente associados aos três nomes nacionais. À medida que vê seu favoritismo ameaçado, Capitão Wagner vai tentando se descolar de Bolsonaro. É o mesmo movimento feito por Celso Russomanno em São Paulo: ora é bolsonarista, ora independente.

Mas a ligação do candidato do Pros com movimentos como o dos policiais militares no Estado no ano passado, de forte apoio bolsonarista, e a presença antecipada do presidente na campanha de lá não permitem a ele se desgarrar totalmente do padrinho, e isso bem sendo bastante explorado pelo governador petista Camilo Santana.

Santana vive uma situação sui generis. Ele foi eleito com forte apoio de Cid, a quem sucedeu, e Ciro Gomes. Continua integrante do projeto dos Ferreira Gomes, o que lhe rendeu uma delicada situação quando eram Ciro e Fernando Haddad os candidatos em 2018. Agora segue no mesmo muro: não deu nenhuma declaração a favor da candidata petista, Luizianne, que, ainda assim, usa sua imagem em sua propaganda.

Há dúvidas de aliados quanto a um comportamento de Camilo na reta final caso Sarto e Luizianne estejam empatados, com chances de ir ao segundo turno. O governador parece contar, nos bastidores, com a possibilidade de o pedetista desgarrar dos outros dois.

Nesse caso, parece pouco provável que dois candidatos do mesmo campo se enfrentem na segunda fase da disputa. A divisão da sólida aliança Ferreira Gomes-PT se deu por insistência de Luizianne em ser candidata, como já havia acontecido em 2016. Agora, ela se vale da popularidade do governador para ter um desempenho melhor que o que registrou em 2016. Há algumas semanas a presença de Lula em sua propaganda ficou mais marcada.

E aqui entre o outro fator nacional da disputa do Ceará: a recusa petista em abrir mão de candidatos em Estados-chave para potenciais aliados em 2022, o que mantém muito reduzida a possibilidade de alguma frente de esquerda, já que as demais siglas não acreditam na capacidade petista de abrir mão de hegemonia e da narrativa do lulocentrismo em nome de um projeto maior de vencer Bolsonaro.

Por isso, é imprescindível para Ciro começar a se viabilizar como polo de atração dessa frente a vitória incontestável “em casa”, e batendo nomes de Bolsonaro e Lula. Esse será o “passaporte” do pedetista para reivindicar, por exemplo, apoio de siglas como o PSB, que tem boas chances eleitorais em cidades como Recife e vai construindo a possibilidade de ir ao segundo turno na São Paulo de João Doria Jr., outro dos nomes já postos para a sucessão presidencial.