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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Crise muda de patamar, e ninguém sabe o que fazer

Vera Magalhães

Desde o início da semana era possível perceber que o surto global de coronavírus e a crise econômica, também mundial, decorrente dele, haviam mudado de patamar. No domingo à noite no Brasil, a abertura dos mercados na Ásia e o choque entre Arábia Saudita e Rússia em torno dos preços do petróleo já prenunciavam uma semana que exigiria foco e medidas concretas do governo e do Congresso. Mas o que se fez desde então?

  • Na segunda-feira, ainda em viagem oficial aos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro disse ter provas de que a eleição que venceu foi fraudada, pois teriam vencido no primeiro turno;
  • O mesmo Bolsonaro, em diferentes situações, tratou o surto de coronavírus como “fantasia” ou uma “gripe” que mata menos que outras;
  • O Ministério da Saúde ficou até quarta-feira mantendo sua estratégia low profile do enfrentamento do coronavírus mesmo com todos os gráficos mostrando que estava próximo um crescimento exponencial da contaminação no País;
  • O perfil oficial da Secretaria de Comunicação da Presidência propagou a convocação para manifestações no domingo, enquanto o mundo todo restringe aglomerações;
  • O Congresso aprovou uma despesa extra de R$ 20 bilhões ao ano que pode implodir o teto de gastos no momento em que a economia sofre os solavancos da crise global;
  • Reunião posterior entre ministros e parlamentares para avaliar medidas acaba em desentendimento e não avança em nenhuma agenda.

Essa escalada de despropósitos vinda de diferentes representantes da classe política ou da burocracia do Estado mostra o completo despreparo para lidar com uma crise que mudou de patamar.

Não há medidas concretas a serem tomadas de imediato. O relato feito no Estadão desta quinta-feira, a partir da gravação de reunião entre Paulo Guedes (Economia) e as principais lideranças do Congresso mostra a completa incapacidade de articulação política entre os dois Poderes, de tão dilapidada que foi a confiança mútua entre eles.

Bolsonaro não reuniu nenhuma vez o ministério completo desde que a crise do coronavírus começou. Há medidas que têm de obrigatoriamente abarcar mais de uma área do governo, a inteligência precisa ajudar no monitoramento da crise e a Saúde tem de mudar seus protocolos porque se avizinha uma situação de pressão sobre o sistema público de saúde.

Mas tudo isso parece passar ao largo do radar do governo, mais preocupado em inflar os atos do próximo domingo.