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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: De saída, Weintraub fala da cadelinha, mas não da Educação

Vera Magalhães

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O vídeo da saída de Abraham Weintraub do Ministério da Educação é uma espécie de grand finale de uma série de performances patéticas que marcaram a passagem do economista pela pasta mais importante para a construção do futuro do País, e a mais mal-sucedida de um governo em que o campeonato é duro.

O presidente Jair Bolsonaro com o agora ex-ministro da Educação Abraham WeintraubO presidente Jair Bolsonaro com o ministro da Educação, Abraham Weintraub

O presidente Jair Bolsonaro com o agora ex-ministro da Educação Abraham Weintraub Foto: Dida Sampaio/Estadão

Weintraub, ao lado de um Jair Bolsonaro com cara de quem está preocupado com a prisão de Fabrício Queiroz e contrariado de ter de estar ali, diz que ficou famoso pelo improviso, mas ali lerá algumas palavras. Puxa uma folha de caderno arrancada, fala da sinecura que recebeu do presidente ao ser chutado do MEC, com cargo no Banco Mundial, fala que sua cachorrinha Capitu terá mais segurança, mas não diz UMA PALAVRA SEQUER sobre seu período à frente da Educação brasileira, justamente porque não há legado algum.

Análise técnica do movimento Todos pela Educação divulgada nesta quinta-feira mostra a incapacidade de gestão de Weintraub em números. Os dados de execução orçamentária mostram que no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, de R$ 1,1 bilhão transferido neste ano para escolas, 90% eram empenhos de recursos não executados de 2019.

O apagão de gestão do MEC já havia sido mostrado em caudaloso estudo da Comissão de Educação da Câmara.

O ministro não conseguiu, em mais de um ano à frente da pasta, encaminhar uma substituição para o Fundeb, que financia a educação básica.

Passou o tempo todo em guerra com universidades federais e órgãos de fomento à pesquisa e extensão universitária.

Na saída, teve tempo ainda para uma medida de puro revanchismo: revogar portaria que estabelecia políticas afirmativas para acesso a pós-graduação.

Outra medida que deverá ser revista pelo Congresso, outra tônica da desastrosa passagem do exótico professor pelo MEC. A mais recente foi a medida provisória que permitia que ele nomeasse reitores biônicos em universidades, emitida com aval de Bolsonaro e do Planalto, mas devolvida sumariamente pelo Congresso.

Ele também teve de rever a decisão de manter o Enem mesmo com a pandemia. Chegou a gastar dinheiro público com uma propaganda ofensiva para estudantes que se viram sem aulas e sem perspectivas em que atores diziam que queriam, sim, fazer o Enem de qualquer jeito. Foi preciso que a Justiça mandasse adiar o exame para ele recuar da decisão anti-educação, uma entre tantas.

A gestão de Weintraub também foi marcada pela guerra cultural. Na verdade, essa foi sua maior atividade. Vídeos vexaminosos nas redes sociais, em que aparecia tirando a camisa para mostrar uma cicatriz, imitando mal e porcamente o musical Dançando na Chuva ou fazendo conta errada com bombons de chocolate viralizaram e envergonharam o País, para gáudio de Bolsonaro, que adorava citar o ministro como exemplo.

Agora, o presidente resolve sacá-lo do governo não por esse conjunto grotesco da obra, mas porque vive a ilusão autoritária de que isso fará com que o STF lhe dê uma trégua. Na saída, “premia” o fato de Weintraub ter sido o pior ministro que já passou pela Esplanada (e não só pelo MEC) lhe dando um cargo no Banco Mundial.

Não deixa de ser mais uma ironia em um governo em que o delírio ideológico produz distopias diárias que um olavista paranoico que adora malhar o “globalismo” vá buscar guarida para o fato de ter sido chutado pelo chefe e segurança para a cachorrinha num banco símbolo do tal globalismo.

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