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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Entrevista de Bolsonaro reforça estilo e prioridades

Vera Magalhães

A entrevista exclusiva de Jair Bolsonaro à repórter Jussara Soares, do Estadão, publicada pelo jornal nesta quinta-feira, reforça o estilo do presidente e algumas das suas principais “obsessões”: a lealdade dos auxiliares, a hipersensibilidade à pressão por parte dos seus grupos de apoio, a intolerância a questões delicadas e o foco absoluto na reeleição. Vamos a elas:

Foto: Gabriela Biló/Estadão

  1. Lealdade ou morte: na entrevista, Bolsonaro explicita quais os critérios para manter ou afastar auxiliares, inclusive ministros: se tem projeto eleitoral próprio e está usando a pasta para se autopromover (e aqui ele fala da eleição municipal, mas está pensando mesmo na presidencial de 2022), está fora; se tem denúncia de irregularidade ou evidência de incompetência, mas é leal a ele, fica. Ele diz que os problemas do Enem estão superados e praticamente decreta que Abraham Weintraub fica;
  2. Hipersensibilidade à pressão: Bolsonaro retoma a defesa do populismo tributário a que recorreu ao entrar em guerra com governadores pela redução do ICMS dos combustíveis. Admite que excluiu Paulo Guedes da discussão e trata diretamente com o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e diz que estava recebendo muita pressão pelo preço do combustível e quis dividir o fardo. Não se dá conta que a defesa da redução de alíquotas de tributos que incidem sobre combustíveis significará menos receita para Educação dos Estados, por exemplo;
  3. Intolerância a questões delicadas: Bolsonaro recorre ao velho expediente de se recusar a responder quando questionado a respeito de temas que o contrariam. Por duas vezes questionado sobre a permanência ou não de Onyx Lorenzoni no cargo atalha: “Outra pergunta”. Quando a repórter lhe pergunta a respeito de João Doria, dá um pito: vamos falar de coisa séria.
  4. Foco total na reeleição: esse permeia toda a fala, abrangendo os tópicos anteriores e a defesa que o presidente faz do primeiro ano de mandato. Há também um ato falho: ele diz que, se tiver dois mandatos, poderá nomear todos os candidatos ao STF e ainda sobrará uma quarta vaga. Só pensa naquilo.

Do ponto de vista noticioso, a novidade da entrevista é Bolsonaro dizer que a prioridade do ano é a reforma tributária. Isso porque nas entrevistas anteriores ele vinha concentrando foco na administrativa, o governo ainda não tem a própria diretriz para a tributária e ele acaba de comprar uma guerra com os governadores que vai dificultar em muito a sua tramitação.

Além disso, fica evidente que ele vai insistir na questão do ICMS, o que contraria Guedes. Vem mais solavanco por aí.

Por fim, altamente noticiosa a crítica que ele faz à discussão, no Congresso, de mudanças nos critérios de indicação de ministros do Supremo. Com a oposição do Executivo e do próprio Judiciário, a medida tende a morrer. E reconhece que há três de seus auxiliares duelando por vagas no Supremo: Sérgio Moro, o advogado-geral André Mendonça e o titular da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge Oliveira.

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