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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Frase de Lula não foi ‘infeliz’, foi abjeta

Vera Magalhães

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Há dois pesos e duas medidas na forma como boa parte da “inteligência” brasileira trata, e não de hoje, as frases inaceitáveis de Jair Bolsonaro e as declarações igualmente inadmissíveis de Lula, como se o ex-presidente tivesse licença para barbarizar e uma condescendência que só se explica pelo fato de ser ele um ídolo da esquerda, enquanto o atual ocupante do Planalto é “mito” da extrema-direita reacionária.

O ex-presidente Lula

O ex-presidente Lula Foto: Dida Sampaio

A passação de pano com qualquer um deles nos leva a ficarmos presos eternamente numa polarização que interessa a ambos os espectros, o bolsonarismo cada vez mais autoritário e ameaçador, e o lulopetismo, que além de não ter feito em nenhum momento nenhum mea-culpa pelo projeto deliberado de assalto aos cofres públicos que instalou no País e pela profunda recessão econômica e depressão social que legou ao Brasil.

Lula não foi “infeliz”, como disse, ao pelo menos se desculpar do absurdo, ao dizer que “ainda bem” que veio o coronavírus para mostrar a Bolsonaro e Paulo Guedes a importância do papel do Estado. Ele apenas cometeu um ato falho de dizer exatamente o que pensa. O petista sempre pensou a política, o PT e o País a partir dos próprios interesses, e não o oposto.

A chegada da covid-19 colocou em xeque o projeto liberal de economia, sim, mas à custa de mortes, desemprego, agravamento dramático da desigualdade social, abismo educacional, colapso do sistema de saúde e muitas outras desgraças. É a isso que Lula comemora em nome da desmoralização ou do enfraquecimento de seu adversário.

E ele quis dizer exatamente o que disse, porque o petismo só enxerga na polarização odienta com o bolsonarismo a possibilidade de voltar ao poder, seu único projeto para o País.

Tanto é assim que a entrevista de Felipe Neto ao Roda Viva só repercutiu no petismo numa frase lateral em que o influenciador diz que hoje acha que o impeachment de Dilma Rousseff foi “golpe”. Seu clamor à união em nome do combate ao projeto autoritário de Bolsonaro entrou por um ouvido e saiu pelo outro, justamente porque Neto não categorizou Lula como o indutor desse projeto. Ao contrário: delimitou essa frente ao espectro que vai de “Ciro Gomes a João Amoêdo”.

Lula é hoje uma sombra do que foi em termos de relevância. Tanto é que sua frase abjeta comemorando a chegada “didática” do vírus não causou a repercussão que causaria no passado. Mas não nos esqueçamos: não é a primeira e não será a última frase de Lula que contém traços de desumanidade.

Quando nas gravações disponibilizadas pela Lava Jato o então investigado, e depois condenado, dizia que faltava uma mulher de “grelo duro” no Supremo Tribunal Federal, ou quando afirmou que Clara Ant “se animou” ao ver um monte de homens entrando em sua casa, para só depois perceber que eram policiais federais realizando uma busca e apreensão, ele foi tão machista e misógino quanto Bolsonaro em seu esplendor. Mas contou com a camaradagem até do movimento feminista, que ato contínuo adotou a expressão “grelo duro” como, vejam só, sinal de “empoderamento”.

É lamentável que o Brasil insista em endeusar políticos, ainda mais alguns sobre os quais pesam condenações ou denúncias ou gestos autoritários. Não é saudável, independente da ala ideológica do fanatismo.

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