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por Marcelo de Moraes

Da Vera: Governo Bolsonaro é uma partida de Jenga

Vera Magalhães

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Todo mundo deve conhecer o Jenga, aquele jogo lúdico em que crianças (adultos também) empilham bloquinhos para construir um edifício e, depois, têm de ir removendo esses tijolos sem deixar que o prédio desabe. Pois bem: o equilíbrio existente entre as diferentes forças que foram sendo empilhadas para compor o que se chama de governo de Jair Bolsonaro é uma partida de Jenga.

O presidente Jair Bolsonaro com ministros do governo

O presidente Jair Bolsonaro com ministros do governo Foto: Gabriela Biló/Estadão

O prédio já está para lá de bambo, e a cada dia um dos responsáveis pelos bloquinhos tenta de toda forma levar o negócio ao chão. Uma hora vão conseguir.

Só nos últimos dias, houve fogo nada amigo entre os ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o titular da Secretaria de Governo (e general da ativa, não nos esqueçamos), Luiz Ramos; mais um passa-moleque de Bolsonaro em Paulo Guedes, desta vez revogando um decreto que nasceu no Ministério da Economia e foi defendido pelo que sobrou da equipe do ministro; Bolsonaro desautorizando o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, também general; o ex-porta-voz da Presidência, também general, fazendo pesadas críticas usando o latim para atenuar as palavras, e uma obstrução da pauta de votações da Câmara causada pela própria base do governo, agora representada pelo velho e bom Centrão. Para de pé uma engenharia dessa? Não.

Os militares já perceberam que entraram de gaiato como bloquinho de madeira para ajudar a erigir um prédio condenado. As reações desconfortáveis ao artigo do general Octávio do Rêgo Barros mostram que as Forças Armadas foram mostradas em toda a sua terrível contradição: caíram ingenua ou arrogantemente no conto de que voltariam a ter a relevância política que a redemocratização lhe tirou, mas para isso embarcaram na conversa mole de que um capitão reformado do Exército que passou 28 anos mamando na petecagem da política teria algum respeito à hierarquia militar.

Os chamados “ideológicos”, aquela ala ressentida, revanchista, que nunca leu nada, nem os livros do guru Olavo de Carvalho e viu na figura do Mito uma chance de superar anos de irrelevância intelectual, social e funcional, está ali se virando nos 30 para não desmoronar junto com o jogo de Jenga. Isso porque é daquelas que Bolsonaro menos hesita em rifar, como mostram casos recentes dos irmãos Weintraub, da diligente Bia Kicis e de tantos outros. Esse pessoal serve para angariar lunáticos nas redes sociais, mas não para algo que se assemelhe a governar, e Bolsonaro sabe disso.

Aí ele trouxe o Centrão para escapar do impeachment e, graças a boas doses de auxílio emergencial, melhorar sua popularidade. Funcionou até aqui. Mas qual a chance de ser sustentável e não desmoronar? Zero. Com a mesma avidez que a nuvem de gafanhotos puxada pelo Progressistas chegou e se instalou, irá embora caso a popularidade mingue e alguma das investigações avance e impulsione um pedido de impeachment. Não nos esqueçamos da performance desse pessoal no governo Dilma Rousseff: no cargo de manhã e votando sim “em nome da família brasileira” à tarde.

Diante de tamanho caos, a gente quase esquece que o País está mergulhado na recessão, chafurdando num platô perturbador de mortes em meio à pandemia e sem nenhuma coordenação digna do nome por parte desse presidente equilibrista para que nos preparemos para a vacina, implementemos alguma política de substituição ao auxílio ou equacionemos uma barreira para evitar que a segunda onda da covid-19 nos assole, como já atinge a Europa e os Estados Unidos.

Isso se deve ao fato de que Bolsonaro está única e exclusivamente empenhado em evitar que os diversos bloquinhos que dão sustentação ao seu edifício não se esborrachem no chão. Enquanto isso, seus projetos no Congresso estão parados e nem o Orçamento do difícil 2021, ano 2 da pandemia, começa a ser debatido.

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