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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Ignorar Bolsonaro é a melhor saída?

Vera Magalhães

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Os ocupantes das principais posições do Legislativo e do Judiciário demonstram a disposição de deixar Jair Bolsonaro “falando sozinho” diante da clara estratégia do presidente de esticar a corda da crise institucional justamente no momento em que o País e o mundo vivem uma crise econômica e epidemiológica com o coronavírus. Parecem querer resolver o problema diretamente com Paulo Guedes, como se fosse coisa de “adultos”, praticamente relegando o presidente a uma situação de inimputabilidade.

Isso é uma forma inédita de se lidar com um presidente que decide governar estressando as instituições. Com outros que fizeram o mesmo, como Janio Quadros ou Fernando Collor, a situação acabou se encaminhando rapidamente para o expurgo.

Mas com Bolsonaro é diferente, porque os Poderes temem que o clamor às ruas e ao fechamento dos demais Poderes agregue um componente de instabilidade social a uma crise que já é multifacetada e cuja extensão e gravidade ainda está por ser conhecida.

Resta saber se o presidente entenderá os ouvidos moucos que os demais líderes políticos fazem à sua escalada de abusos como licença para abusar ainda mais, como parece estar acontecendo a julgar pela sua aposta desta segunda-feira no descalabro, ao dizer com todas as letras que a eleição que lhe deu a vitória foi fraudada, ou chantagear abertamente o Congresso na questão dos PLNs que tratam da distribuição de recursos do Orçamento.

A cautela dos demais Poderes mostra uma dificuldade de lidar com um líder com as características de Bolsonaro: que não respeita as instituições e aposta na força que tem junto a uma parcela da sociedade, atiçada à base de rações diárias de tretas nas redes sociais.

A aposta em tentar domar a crise deixando Bolsonaro falar sozinho é arriscada também porque já não se tem segurança se o receituário de Paulo Guedes será suficiente para atravessar uma recessão global. As reformas que já estão no Congresso parecem não se encaixar ao que o momento pede, e a administrativa, que está para ser mandada, pode agravar os confrontos com a sociedade em vez de dirimi-los. A tributária, que poderia ser uma sinalização para atrair investimentos, segue sem consenso.

O temor de uma parcela do Congresso que ainda aposta em diálogo é que Bolsonaro, em sua escalada populista, acabe por rifar também Guedes em plena tempestade econômica, o que levaria a tática de tentar atravessar a crise deixando o presidente guerrear com moinhos de vento inviável.