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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Lula tem licença dos intelectuais para apavorar?

Vera Magalhães

Há uma excitação indisfarçada em boa parte da intelectualidade brasileira com a soltura de Lula. Muitos de fato convencidos de que ele foi alvo de um processo injusto, outros apenas por admiração ao personagem, uma terceira categoria comemorando o fato de que o governo Jair Bolsonaro agora terá uma oposição, pululam análises positivas quanto à decisão que levou o ex-presidente às ruas. Não estou entre os que acham que a condenação de Lula e os outros tantos processos a que ele respondem são injustos, perseguição política ou algo do gênero.

Ele foi condenado a partir de provas, depoimentos, delações, documentos adulterados, fotos de visitas ao triplex no Guarujá, evidências de reformas dirigidas e uma série de elementos que constam do processo, foram analisados em primeira e segunda instância e confirmados pelo STJ, que fez a dosimetria da pena.

Erros e excessos da Lava Jato devem ser corrigidos e eventualmente punidos, mas não há na Vaza Jato nada que demonstre plantação de provas, adulteração de documentos, combinação de resultados nem conluio. Acredito que limites entre Ministério Público e o então juiz Sérgio Moro foram quebrados, mas isso só foi constatado a partir da quebra criminosa de sigilo de conversas entre eles. Portanto, não é possível afirmar que essa proximidade se restringia ao juiz e aos procuradores, nem o que fizeram, por exemplo, defensores, pois não houve simetria no hackeamento.

Mas este texto não diz respeito a isso. Lula foi solto corretamente pelo juiz a partir de um entendimento controverso do STF. Uma vez na rua, se pôs imediatamente a propor a radicalização da ação política, e fala em usar “exércitos” do MST, algo que não se tem certeza de que disponha mais, para incendiar o País. Os mesmos que se opõem ao radicalismo de Bolsonaro, com razão, aplaudirão esse tipo de instigação ao caos num momento em que o País precisa da recuperação da economia e dos empregos?

É preciso que a academia, os intelectuais e os formadores de opinião de centro-esquerda e de esquerda não incorram no erro que apontam em seus congêneres da direita: o de tolerar excessos autoritários dos seus ídolos sob a argumentação de que é preciso vencer o outro lado mais nefasto. Instituições e democracia são patrimônios de todos, independentemente de afiliações ideológicas. E o Brasil ainda não superou suas prolongadas crises para se enfiar numa guerra que não se sabe onde pode acabar se todos se dispuserem a acender o pavio.