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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Maia e Davi em rotas distintas

Vera Magalhães

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Não era esperado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), o movimento urdido discretamente pelo seu colega do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), para manter o veto de Jair Bolsonaro às alterações feitas na Lei de Diretrizes Orçamentárias que aumentaram a ingerência dos parlamentares sobre os recursos do Orçamento.

Pelo roteiro imaginado por Maia, o veto seria derrubado para mostrar que o Congresso não se intimidou com as convocações de protestos para o próximo dia 15 e, depois, haveria um Projeto de Lei do Congresso Nacional (PLN) dispondo sobre a realocação dos cerca de R$ 30 bilhões em torno dos quais se desenrola a briga entre Legislativo e Executivo.

O silêncio de Alcolumbre quando muitos parlamentares e outros integrantes de instituições, como os ministros do STF, criticavam o aval de Bolsonaro aos atos era decifrado como estratégico: assim ele se preservaria do tiroteio para comandar a derrubada do veto.

O apoio declarado de mais de 35 senadores à manutenção do veto mudou o script de Maia, que foi pego completamente de surpresa numa reunião em que o líder do MDB na Casa vizinha, Eduardo Braga (MDB-AM), anunciou apoio majoritário à manutenção do veto.

O presidente da Câmara se irritou e chegou a convocar Alcolumbre para ir à residência oficial da presidência da Câmara explicar aos deputados por que o Senado manteria o veto, se havia acordo prévio com o governo pela derrubada e futura recomposição dos recursos.

O meio-termo que se conseguiu, com o envio de um PLN antes da manutenção do veto, deu uma leve serenada nos ânimos, mas a saída não foi exatamente a pretendida por Maia. Os aliados do presidente da Câmara acham que a manutenção do veto permitirá ao governo alardear nas redes sociais que venceu diante da pressão popular. O acordo, o PLN, tudo isso passaria ao largo da compreensão da imensa maioria da população.

Tanto que o próprio Bolsonaro tratou de tuitar em tom triunfalista que o governo tinha obtido a recomposição total de seu controle sobre o Orçamento.

O temor dos deputados é que a manutenção do veto não só não esvazie as manifestações como ainda dê a Bolsonaro a impressão de que basta ameaçar com a carta do “povo na rua” para acuar o Legislativo. A queda de braço também deve estressar as relações entre os dois correligionários que comandam as duas Casas do parlamento, e pode significar uma cisão na maneira como vão lidar com o Executivo de agora em diante.