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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Mico de OCDE foi antes, não agora

Vera Magalhães

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A decisão dos Estados Unidos de não referendar a antecipação do ingresso do Brasil na OCDE não tem nada de anormal, a não ser o fato de que a ala mais ideológica do governo Jair Bolsonaro vendeu, na visita do presidente a Donald Trump, em março, e ao longo dos meses seguintes, a mistificação segundo a qual o “bom relacionamento” entre os dois renderia condições especiais ao Brasil para o ingresso no clube dos ricos.

Jair Bolsonaro, presidente da República, e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, dão as mãos

Jair Bolsonaro e Donald Trump. Foto: Kevin Lamarque/Reuters

A carta de agora do governo norte-americano não significa que ele retira apoio do Brasil, ou que o Brasil não poderá ingressar na organização no ano que vem, como confirmou nesta tarde o Departamento de Estado dos EUA. Mas evidencia que é pura narrativa vazia de consequência prática a suposta intimidade dos Bolsonaro com Trump.

Os interesses dos Estados Unidos na América do Sul passam pela conveniência de contar com o Brasil, por exemplo, para tentar apear Nicolás Maduro na Venezuela. Como isso se tornou menos possível do que parecia em março, Bolsonaro perdeu interesse como aliado. Além disso, o Brasil já fez concessões unilaterais aos Estados Unidos (dispensa de visto para norte-americanos, acordo do etanol) que fazem com que o interesse do governo Trump em “quebrar o galho” de Bolsonaro seja menos imediato.

O episódio serve para mostrar que o Brasil ainda tem muito dever de casa a fazer para pleitear acesso à OCDE, como o secretário-adjunto do organismo, Ludger Schuknecht, deixou constrangedoramente claro ao participar do fórum de investimentos ao lado de Paulo Guedes, Bolsonaro e Ernesto Araujo —o qual, pisando em astros distraído, estava se gabando da iminente entrada na OCDE quando a notícia da carta já era de conhecimento do governo, como reconheceu o próprio Guedes.

E também ilustra como poucos o quanto é jeca, mentirosa e perigosa a narrativa épica e puramente ideológica que move a política externa brasileira. O “I love you” dito por Bolsonaro a Trump num encontro rápido nos corredores da ONU vira a frase emblemática do aprendizado: em diplomacia não existe amor, só pragmatismo.

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