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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Moro sai para ser pivô do impeachment de Bolsonaro

Vera Magalhães

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Sérgio Moro deixa o Ministério da Justiça para se tornar, ato contínuo, pivô de um agora mais provável processo de impeachment de Jair Bolsonaro. Em seu gravíssimo pronunciamento para anunciar a demissão, Moro elencou acusações contra Bolsonaro:

  1. ter manifestado expressamente a intenção de interferir politicamente na Polícia Federal, não apenas na direção-geral, mas nas superintendências regionais;
  2. que Bolsonaro afirmou expressamente que queria uma PF subordinada a ele, que ele tivesse acesso pessoal à cúpula da PF para interferir em investigações em andamento e inclusive ter acesso a relatórios de inteligência;
  3. que o presidente fez o que nem Lula e Dilma Rousseff fizeram: interferir politicamente na Polícia Federal;
  4. que Bolsonaro traiu a palavra de que não haveria interferência política no Ministério da Justiça e que ele teria carta-branca para conduzir a pasta;
  5. que é mentira do presidente que Maurício Valeixo teria pedido para deixar a Polícia Federal; ele teria sido comunicado na noite de quinta-feira a Valeixo que a exoneração sairia no Diário Oficial na manhã de sexta;
  6. que ele não assinou a demissão de Valeixo no DOU, como consta da publicação e foi sustentado por Bolsonaro no Twitter e pelo perfil oficial da Secom;
  7. que Bolsonaro também gostaria de ter acesso a inquéritos que correm no Supremo Tribunal Federal e manifestou a ele preocupação com essas investigações.

Moro não dourou a pílula em nenhum momento. Além das gravíssimas revelações que fez, ainda deixou claro que não concorda com a forma como Bolsonaro tumultua o combate à pandemia do novo coronavírus — lamentou, inclusive, que isso esteja acontecendo neste momento tão grave para a saúde pública.

Sérgio Moro

Sérgio Moro Foto: Gabriela Biló/Estadão

Com o pronunciamento histórico que fez, Moro passa a encarnar dois tipos de personagens de processos anteriores de impeachment: o do aliado que rompe, como Pedro Collor com o irmão, em 1992, e do jurista que capitaneia o processo, como fizeram Janaina Paschoal, Miguel Reali Jr. e Hélio Bicudo no caso de Dilma Rousseff.

Ao sair atirando, o ministro tenta já fazer a desinfecção de sua imagem em relação ao bolsonarismo, e o faz com antecedência grande em relação à eleição de 2022, no momento de maior desgaste do governo e quando outros pilares da gestão, como Paulo Guedes, também balançam.

Ele demoliu a imagem de combate à corrupção que parte dos eleitores associavam erroneamente a Bolsonaro. Explicitou que Lula e Dilma Rousseff nunca ousaram fazer o que ele faz: interferir politicamente na PF durante a Lava Jato. Esse depoimento da parte do principal algoz do PT é demolidor.

Já há vários pedidos de impeachment sobre a mesa de Rodrigo Maia. Outros vão vir na esteira das graves acusações de Moro. Nada indica que Maia vá segurar todos indefinidamente. Aliás, um fato importante aconteceu na quinta-feira: o decano do STF instou Maia a dizer por que não dá prosseguimento a esses pedidos. O mesmo Mello que disse que Moro deveria deixar o cargo porque “não tem palavra”.

O cerco institucional ao presidente se fecha. A passagem de Moro para a outra margem do rio não é fator acessório no xadrez. Pode ser o que faltava para o alinhamento de astros necessário para fazer com que um pedido de impeachment ganhe corpo e viabilidade.

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