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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Não importa o que Guedes quis dizer; não deveria ter dito

Vera Magalhães

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A essa altura do campeonato, com o dólar escalando a casa dos R$ 4,25 e o mundo político em polvorosa depois de sua entrevista coletiva em on que depois tentou transformar em off, importa pouco o que o ministro Paulo Guedes quis dizer quando teceu uma tese segundo a qual, se a esquerda radicalizar, não pode reclamar caso o “lado de cá”, o do governo, replique falando em um novo AI-5. Algumas coisas não devem ser ditas por homens públicos, em on ou em off, no caso concreto ou em tese. Menos ainda pelo responsável pela Economia do País e aquele em quem a sociedade, o mercado, o setor produtivo e o mundo colocam as fichas de que representa a âncora de confiabilidade de um governo em que esse ativo já foi completamente dilapidado em 11 meses.

Eu sei que Guedes não defendeu medidas extremas. Não tenho por que desconfiar da convicção democrática do ministro. Já ouvi o raciocínio que embasa a fala do ministro. A base é um lamento: ele sabe que sua agenda de reformas pós-Previdência foi abatida enquanto decolava com a soltura de Lula, a radicalização de seu discurso e a reação imediata de Jair Bolsonaro, misto de paranoia, autoritarismo e nenhuma fé concreta no credo liberal. Eu escrevi que isso iria acontecer na minha coluna no Estadão no domingo imediatemente subsequente ao “Lula solto”. Ele estava há dois dias na rua e ainda não tinha falado em São Bernardo, mas eu analisei: a agenda de Guedes tinha tudo para ser a primeira vítima da volta da polarização ao seu grau máximo.

Não deu outra, e não demorou. Bolsonaro mandou segurar a reforma administrativa e as demais emendas à Constituição, que já tinham ido ao Congresso, agora devem andar em ritmo lento e descompassado. Interlocutores do ministro já me disseram depois disso que a coluna foi “profética, na mosca”.

Mas naquele mesmo texto eu já dizia, no título, que a ocasião seria uma espécie de PhD de política para o economista Guedes. E ele vai indo mal nessa prova. Evocar medidas extremas, como um inadmissível AI-5 ou algo sequer próximo o coloca no mesmo barco que a ala ideológica e autoritária do governo, que aliás age para fustigá-lo, e à qual ele deveria ser um contraponto necessário.

Por isso, não dá para passar uma flanela na fala do ministro. Mesmo porque ela é eivada de equívocos e perigosa condescendência com o autoritarismo demonstrado pelo presidente, ao pedir excludente de ilicitude para operações de Garantia da lei e da ordem, e com o filho Eduardo, que falou em AI-5 muito antes da soltura de Lula –e não como reação a ele, como disse o ministro.

É urgente que Guedes se retrate e peça desculpas, sem tergiversar. E que não tente explicar a complexa rede sociológica e histórica que leva à construção do seu raciocínio. Isso porque não estamos em 1968, o Brasil não é o Chile e não há uma mísera pessoa na rua. Especular com radicalização em cima de hipótese é coisa já condenável na oposição e em golpistas, mas no ministro da Economia é algo impensável. No do ministro que é o posto Ipiranga de um presidente populista e com pendores autoritários, é um perigo.

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