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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Nem só auxílio explica recuperação de Bolsonaro

Vera Magalhães

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Sim, o auxílio emergencial teve grande peso na recuperação da avaliação de Jair Bolsonaro mostrada por várias pesquisas nos últimos dias e ratificada pelo Datafolha nesta sexta-feira. Já se sabia disso quando o benefício de R$ 600 (que pode chegar a R$ 1.200 para alguns casos) começou a ser pago, no início do agravamento da pandemia de covid-19.

O presidente Jair Bolsonaro em frente ao Palacio da Alvorada Foto: Gabriela Biló/Estadão

Mas, se quiserem entender o fenômeno e se contrapor a ele, os que se pretendam opositores de Bolsonaro em 2022 precisam olhar para além do auxílio. Afinal, o que explica a subida do presidente fora da margem de erro também entre os mais escolarizados, mais ricos, inclusive entre os mais jovens, em todas as regiões do País e fortemente no empresariado? Durante uma crise econômica sem precedentes e com mais de 100 mil mortos?

Este é o corte mais preocupante da pesquisa. E ele indica que, de alguma maneira, Bolsonaro pode estar sendo mais eficaz do que previam as instituições, a imprensa, a comunidade científica e seus tíbios opositores em emplacar sua narrativa mentirosa a respeito da evolução da pandemia. E isso é muito grave.

Fiz recentemente uma live com Carlos Andreazza e Alexandre Borges em que ambos apontaram esse fenômeno. Divergi na ocasião, argumentando que: 1) diferentemente de 2006, quando Lula se safou do mensalão bombando o Bolsa Família, agora não se vive um período de bonança econômica e as contas foram depauperadas justamente por Dilma Rousseff, a herdeira da artimanha, e 2) numa pandemia, disse eu, a concretude de mortes e as evidências da ciência acabam com narrativas falsas e cínicas.

A primeira premissa segue posta, e coloca em dúvida a duração da fase “pai dos pobres” de Bolsonaro e seus dividendos eleitorais junto ao eleitorado de menor renda, do Norte e do Nordeste e de baixa escolaridade. Esse é o tema central do governo hoje: descambar de vez para o populismo fiscal e garantir a reeleição lá na frente, rifando de vez o fiscalismo de Paulo Guedes, ou desviar do iceberg do buraco fiscal antes que ele sugue o País, ainda que a reeleição dependa disso.

Sim, é claro que uma emergência social gravíssima como a pandemia preceitua que governos socorram os que precisam ser resgatados e não podem ser deixados (ainda mais) para trás. Mas isso tem um limite, sob pena de os mesmos pobres pagarem a conta logo ali na esquina, como se viu nos anos Dilma. A “nova matriz econômica” foi eficaz para reeleger a petista, mas o desemprego explodiu logo depois, ajudando a impulsionar, juntamente com a Lava Jato e Eduardo Cunha, o impeachment da petista.

A obsessão da esquerda de analisar só o papel da Lava Jato, da imprensa e do MDB na queda de Dilma a impediu de antever que Bolsonaro estava lhe roubando a agenda com o auxílio emergencial. Numa coluna de 28 de junho, alertei que, tal qual o Sapo na festa do Céu, Bolsonaro se preparava para embarcar no baile da esquerda escondido na viola do auxílio. Voilá! Está aí o Datafolha a demonstrar o que, antes disso, vários economistas e analistas advertiam que aconteceria.

Mas até aqui as instituições seguem semi-anestesiadas, com exceção do Supremo Tribunal Federal, e seus atores seguem servindo de figurantes para o teatro de Bolsonaro. O que é, senão encenação, a fase “contida” do presidente? Seu início coincide justamente com o momento de maior gravidade tanto da popularidade quanto do risco institucional de Bolsonaro, com a prisão de Queiroz, em junho.

Ali, o Datafolha mostrava um abismo entre o recorde de rejeição (44%) e o mínimo de aprovação (32%) do capitão. Agora a linha fez um “x”: 37% acham ótimo ou bom, enquanto 34% o avaliam como ruim ou péssimo.

A maior parte do combustível da virada vem, sim, do auxílio. Despencou de 52% para 35% a avaliação ruim ou péssima de Bolsonaro no Nordeste. Entre os que recebem o auxílio, 42% aprovam o presidente.

Mas isso não explica que sua rejeição tenha despencado de 67% para 56% entre estudantes, ou que ele tenha voltado a ser aprovado por 36% no Sudeste, quando esse índice era de meros 29% em junho.

Nesses segmentos de território e demografia, é a cantilena do “e daí” que parece surtir efeito num público cético quanto à possibilidade de superação da pandemia com medidas como o distanciamento social e cansados de uma quarentena por tempo indeterminado que tolhe trabalho, lazer, afetos e sanidade mental.

É extremamente pernicioso que, condenando, por ações e omissões, o País a ter um dos piores resultados no enfrentamento do vírus, afrontando a democracia e as instituições enquanto pessoas morriam e investindo sobre a transparência em sua própria gestão, Bolsonaro colha melhora de avaliação.

Essa é a grande advertência para 2022: ou a oposição, de esquerda e de centro, encontra um projeto para o País, deixa de se acovardar de enfrentar o presidente em suas múltiplas deficiências como gestor e estadista e passa a ter uma estratégia de desmonte dessa narrativa farsesca ou ele seguirá impávido na tática que já pegou todo mundo de calças curtas em 2018.

Ela se constitui de ênfase nas redes sociais e na criação da imagem do “Mito”, agora à custa de muitas viagens para palanques ao lado de Rogério Marinho, e na destruição de qualquer dissenso (inclusive o lavajatismo, quem diria), sem reação de quem é destruído, e polarização emburrecedora com o PT. E o lulocentrismo petista cai como uma luva para essa tática, Bolsonaro e filhos agradecem.

Some-se a isso um instrumento que só o incumbente pode usar, que são os cofres públicos, e está dado o caminho para a repetição do script.

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