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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: O balanço de fim de ano de Ernesto

Vera Magalhães

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Em um artigo, uma palestra e um vídeo institucional, o chanceler Ernesto Araújo fornece ao público um pacote de balanço de seu primeiro ano à frente do Itamaraty. O conjunto é confuso, prolixo, com traços paranoicos, alto viés ideológico e, como é praxe desde o discurso de posse do ministro, faz uma geleia geral teórica, mistura citações, embaralha conceitos, reinventa significados para teorias políticas e econômicas e pinta um mundo assombrado pelo fantasma do comunismo, em que liberais são chamados pelo jargão “isentões”, cunhado pelo bolsonarismo militante, e a relação do Brasil com os Estados Unidos é reduzido a uma metáfora do presente de Natal dos sonhos de uma criança. Por partes.

A primeira peça do balanço de Ernesto é um artigo, escrito originalmente para um site bolsonarista, mas postado na página do Itamaraty, que diligentemente reúne toda a produção de Araújo. O texto é intitulado “Para além do horizonte comunista“. Nele, o chanceler discorre sobre os riscos de volta do comunismo – que seria algo bem diferente, hoje, do propugnado por Karl Marx, uma espécie de mutação globalista muito mais vil e poderosa – em várias partes do mundo. Ele, Bolsonaro e os governantes de países como Estados Unidos, Reino Unido, Hungria e Polônia seriam os investidos da missão de combater o risco comunista, enquanto os liberais, ou “isentões”, estariam largados preguiçosamente no sofá, criticando o viés ideológico apenas dos que enxergam a ameaça, mas não dos comunistas sorrateiros, que passariam pelos subterrâneos sem combate enquanto isso.

Na longa palestra “A Nova Política Externa Brasileira“, proferida por Ernesto em Luanda, em Angola, no último dia 13, ele traça um balanço glorioso do trabalho do Itamaraty em 2019, se defende daqueles que o enxergam como um “cavaleiro templário” e enxergam motivações ideológicas em tudo que ele faz (embora a fala seja toda ela eivada de ideologia pura) e insiste que o Brasil vai muito bem nas relações com os Estados Unidos. Para se contrapor aos que apontam as frustrações concretas nesse relacionamento em 2019, se sai com uma metáfora natalina.

Vale a pena transcrever o trecho inteiro: “Pergunto: já conseguimos tudo o que queríamos na relação com os Estados Unidos? Não. Claro que não. Ainda não. Não se pode ter tudo de imediato. Já conseguimos coisas importantes: o acordo de salvaguardas tecnológicas, que permitirá um extraordinário desenvolvimento da nossa base espacial; o apoio ao ingresso do Brasil na OCDE – ainda falta iniciar o processo formal de adesão, mas isso já é uma outra etapa…. E continuamos trabalhando. Mas alguns dos nossos críticos, se me permitem uma imagem, parecem – já que estamos perto do Natal também – parecem aquela criança mimada no Natal que nunca está satisfeita com os presentes. Já ganhou uma bicicleta, já ganhou um Autorama – não sei se ainda tem Autorama, mas sempre vi criança jogando – já ganhou computador, telefone… mas está insatisfeita, continua insatisfeita, depois de abrir tantos presentes! “Cadê meu Lego Star Wars?” “Não, ainda não é agora. Calma, vai brincar com sua bicicleta! O pai continua trabalhando para comprar o Lego Star Wars!”.

Diante desse acervo, o vídeo institucional de balanço é um bálsamo. Primeiro, porque tem menos de 3 minutos, ante quase 30 da palestra em Angola. Em segundo, porque se atém a fatos, ainda que edulcorados, e não à elucubração de teses mirabolantes.