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por Marcelo de Moraes

Da Vera: O cenário improvável de João Santana

Vera Magalhães

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O Roda Viva com João Santana, que comandei na noite de segunda-feira, teve várias camadas importantes de debates: sobre o passado, com o escrutínio pesado e duro do que levou à Lava Jato e suas consequências políticas e pessoais para ele que era o principal marqueteiro político do Brasil, e sobre o futuro, com 2022 aparecendo no horizonte do País e também no dele, profissional.

Na primeira parte, o inventário que vai da aproximação de Santana com o PT, ainda no final dos anos 1990, mas mais fortemente depois do mensalão, até a contundente delação premiada fechada por ele e pela mulher, Mônica Moura, e reafirmada ipsis literis por ele em rede nacional de TV, sobram evidências de que a megalomania do PT e a dele, como mago do marketing, se retroalimentaram a ponto de que ninguém ousasse frear a engrenagem da corrupção que levou ao petrolão.

Absolvido desse crime, o de corrupção, e também de organização criminosa, Santana se apoia no fato de que a parte que lhe coube no latifúndio da Lava Jato foi lavagem de dinheiro, e ainda assim alegando que não sabia a origem dos milhões recebidos de bom grado lá fora.

Faz isso como parte da narrativa que constrói para si e para o mercado para o caso de conseguir entabular uma volta aos negócios, agora que suas obrigações judiciais lhe permitem. Certamente não nas bases globais de antes, com campanhas na África e na América Latina afora. Quando foi colhido pela Lava Jato, ele preparava a abertura de subsidiárias de sua empresa no México e a entrada na Europa, mercado até então inexplorada.

Será necessário voltar muitas casas no tabuleiro, num cenário tanto político quanto de comunicação que virou do avesso enquanto ele cumpria sua pena.

E é aí que a análise feita por ele ingressa na segunda parte, a prospectiva, e que suas análises ainda carecem de muito estofo para pararem de pé. Dependem principalmente de uma articulação política que está longe de acontecer e que ele, diferentemente do passado, não tem mais as credenciais para costurar, como fez tantas vezes, extrapolando seu papel de marqueteiro e agindo como mais um ministro político.

Lula vice de Ciro Gomes? Parece impossível com os dados de hoje. Basta ver que o PT só se dignou a selar alianças com outras siglas de esquerda em pouquíssimas capitais, Porto Alegre uma delas. E, mesmo assim, elas não se deram com o PDT de Ciro, com o qual petistas se engalfinham em cidades como Fortaleza (que tinha tudo para ser laboratório dessa aliança, já que é a capital do Estado dos Ferreira Gomes, por sua vez  governado pelo PT) e Rio de Janeiro.

Para caminhar para isso, teria de acontecer algo impensável hoje: o PT abandonar sua agenda de redimir Lula da Lava Jato. Impossível porque a simples possibilidade de o ex-presidente concorrer (a presidente, a vice, ao que for) depende de ter anuladas as condenações em segunda instância que o tornam inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Portanto, essa construção passa necessariamente pela continuidade da cantilena do injustiçado político, e não pelo mea culpa apontado por Santana como necessário.

Além disso, a previsão de que Bolsonaro foi fruto de uma circunstância política específica, conjuntural, e que vai se exaurir em sua própria característica destrutiva e pela incapacidade de governar ainda carece de confrontação com a realidade. Se conseguir equacionar a continuidade de um programa de transferência de renda permanente que seja maior que o Bolsa Família, o presidente pode manter parte dos atuais 30% a 40% de aprovação que tem.

Isso é um bom patamar de largada para uma campanha, se Bolsonaro tiver ainda o Centrão a seu lado e a depender de quem sejam os adversários. E é aí que a profecia de derrota de Santana parece também longe de se mostrar a mais crível: além da improvável união Lula-Ciro, todas as demais forças oposicionistas estão dispersas, sem nomes competitivos e sobretudo sem estratégia viável e inteligente para enfrentar o bolsonarismo.

Santana parece ciente de que o tempo dos programas superprodução em que comida sumia do prato (e ele acha que tudo bem, fazia parte do debate público) acabou. Campanha agora é de baixo orçamento e muita influência do submundo das redes sociais. Estar ciente é uma coisa. Ter se preparado para navegar nessas novas águas é outra. A sede de falar, de forma quase catártica, e de se recolocar na praça pública mostram um profissional disposto a tentar mais uma vida, além das muitas (músico, jornalista, publicitário) que já encarnou.

Para isso terá de se mostrar atualizado e, mais difícil, confiável aos olhos de potenciais clientes depois de ter jogado tanta merda (que fez e que presenciou) no ventilador.