Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: O divórcio entre ‘governo’ e ‘equipe econômica’

Vera Magalhães

Exclusivo para assinantes

Jair Bolsonaro ameaçou com “cartão vermelho” quem falar em congelar aposentadorias e pensões e voltar a pronunciar o título Renda Brasil até o fim de seu governo. Paulo Guedes, ainda assim, se esquivou: disse que a ameaça de cartão não foi para ele.

Difícil saber quanto mais o ministro da Economia é capaz de aguentar.

Se não foi para ele, foi para seu time já desfalcado. Não foi a imprensa que inventou a intriga, como diz o ministro, buscando um culpado pelo chilique do chefe.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

Foi o secretário-executivo de sua pasta, Wadery Rodrigues, quem disse, em on, que o governo estudava desvincular as aposentadorias e pensões do reajuste do salário mínimo, o que poderia levar ao seu congelamento, como forma de mobilizar recursos para o Renda Brasil.

O presidente espumou desde que viu a declaração nas manchetes. Cedo, a equipe de Guedes já sabia que o Renda Brasil havia sido implodido por Bolsonaro antes mesmo de sair da incubadora.

O ministro, diante de mais uma rasteira, preferiu culpar a imprensa. A aliados, disse que foi uma interpretação errônea da declaração do auxiliar que levou ao estouro de Bolsonaro. E antes das 8h já dava como sepultado o programa que ainda desenhava para substituir e dar um gás ao Bolsa Família.

Segundo o raciocínio de pessoas próximas a Guedes, a ideia que estava sendo usada no Renda Brasil era a mesma da PEC emergencial, mandada lá atrás: desvincular os orçamentos públicos e desvincular os gastos. Não congelar aposentadorias e pensões compulsoriamente por longos anos, o que Bolsonaro achou uma “maldade”.

O ministro pode até preferir culpar a comunicação, mas o fato é que as reiteradas demonstrações dadas por Bolsonaro é que, agora, a preocupação com o caixa não está mais no horizonte do presidente. Ele gostou se surfar na popularidade do auxílio emergencial, está nervoso com a retirada desse combustível de imagem neste mês e quer um programa que atraia o eleitorado fidelizado ao Bolsa Família sem abrir flancos para ser criticado por sobrecarregar os “paupérrimos”, como ele diz.

Essa conta não fecha, mas esse não parece ser um problema para Bolsonaro. Não é a primeira vez que ele cisma com auxiliares que não fazem tudo que ele quer. A antiga falsa modéstia de admitir que não entende nada de economia (como de resto não entende nada de absolutamente nada referente ao governo) foi substituída pela arrogância e o autoritarismo já destinados a Santos Cruz, Mandetta e Moro de que ou fazem o que ele quer ou ele corta cabeças, como a Rainha de Copas da fábula de Alice no País das Maravilhas. Embora o Brasil esteja mais para o país do pesadelo.