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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: O pretexto não rolou, mas Bolsonaro insiste

Vera Magalhães

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O pretexto pelo qual os mais radicais da tropa de choque bolsonarista esperavam não aconteceu. Os atos de domingo, 7, contra o governo Jair Bolsonaro foram pacíficos. O único incidente registrado em São Paulo aconteceu no fim da tarde, já na dispersão dos manifestantes, e, segundo a própria Polícia Militar, foi provocado por depredações de pessoas desgarradas da manifestação.

Ato pela democracia e contra o racismo na Esplanada dos Ministérios. Foto Gabriela Biló

A escalada retórica do presidente e de seus aliados também foi contida pela estrondosa repercussão do “apagão” de dados da covid-19 ordenado por Bolsonaro ao Ministério Interino da Saúde, que começou na sexta e só ganhou corpo ao longo do fim de semana, a ponto de virar notícia nos principais jornais do mundo, levar à exclusão (depois revertida) do Brasil do monitoramento feito pela universidade norte-americana John Hopkins, instituição de referência para a covid-19, e ensejar o surgimento de uma série de iniciativas independentes para dar transparência aos números.

Em razão disso tudo, Bolsonaro trocou o radicalismo das falas e aparições dos fins de semana anteriores por uma tentativa de vitimização no Twitter e de se dissociar do agravamento da crise do novo coronavírus, transferindo integralmente para governadores e prefeitos a responsabilidade e com direito até a ressuscitar a frase deturpada da carta-renúncia de Jânio Quadros, apontando a coalizão de “forças nada ocultas” e da imprensa para atingi-lo.

O piti do guru Olavo de Carvalho e a demissão antes mesmo de assumir do empresário Carlos Wizard do Ministério da Saúde também ocuparam o Planalto para além dos protestos. Isso tudo somado ao fato de que, numericamente, as manifestações contra o governo superaram em muito as favoráveis, levou a um recolhimento tático.

Mas Bolsonaro demonstra que não desistiu de tentar associar os protestos à gota d’água para a tomada de alguma medida mais extrema por parte do governo. Diante do ato de vandalismo de um manifestante que jogou tinta vermelha na rampa do Planalto, o presidente disse que estão colocando as “mangas de fora”, em tom ameaçador. Também afirmou que os protestos são o que mais preocupa hoje no Brasil, mais uma vez minimizando a importância de uma pandemia que já matou mais de 37 mil pessoas em três meses.

As próximas semanas serão vitais para que fique claro se o presidente avançará mais algumas casas no enfrentamento das instituições depois da parada estratégica deste fim de semana. Decisões importantes, como a validação ou não do inquérito das fake news pelo Supremo Tribunal Federal nesta quarta-feira, 10, devem definir as próximas jogadas de Bolsonaro no tabuleiro em que avança e recua ao sabor das oportunidades.