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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: O que esperar de Regina Duarte

Vera Magalhães

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A ida de Regina Duarte, ainda que a título de “namoro” sem compromisso, para uma agora “empoderada” Secretaria de Cultura virou uma daquelas celeumas de redes sociais, mas tem de ser analisada sob diversos pontos de vista.

Foto: Reprodução

O primeiro diz respeito à decisão da atriz e o que ela representa para a própria Regina. Muita gente passou ato contínuo a tachá-la de fascista, conivente com o nazismo, a “cancelá-la”, a profetizar que sua carreira acabou. De fato, trata-se de uma decisão arriscada de Regina associar seu nome e uma carreira brilhante a um governo com sérios problemas do ponto de vista das liberdades. Mas há que se reconhecer que é igualmente corajosa.

O segundo aspecto deriva justamente desse primeiro: se ela conseguir se contrapor a esse espírito revanchista e de perseguição às artes que vigorou até aqui e mudar essa chave, sua nomeação terá sido um ganho para a cultura e para as políticas públicas. Trocar um Roberto Alvim por uma Regina Duarte equivale a uma criança trocar um pregador de roupas por uma máquina de lavar futurista no quadro do foguetinho do programa Silvio Santos (só os velhos entenderão a referência, mas é isso).

O duro é que Bolsonaro não tem demonstrado disposição a rever seus conceitos e seus métodos, e o histórico dos “superministros” que foram escolhidos com suposta carta branca sempre mostra que ela deixa de ser irrestrita no momento em que passam a trabalhar. Sérgio Moro teve de recuar na nomeação de uma suplente de um conselho não deliberativo, Ilona Szabó, só porque ela era tida como “esquerdista” por Bolsonaro. Na área cultural, esse tipo de veto tende a ser muito mais frequente e a determinar o sucesso ou não da empreitada.

Além disso, ela terá um grande desmonte do entulho amalucado de Alvim para fazer se quiser legitimar sua ida para a pasta como uma tentativa de fazer política cultural sem caça às bruxas. Demitir todos os olavetes colocados em postos de comando é urgente. Terá força e nomes para fazê-lo?

Por fim, a falta de orçamento para a cultura e a indefinição quanto ao status da área –se ministério ou apêndice de algum outro– não é uma questão irrelevante para definir o que a atriz poderá alcançar na empreitada a que, de forma tão corajosa quanto temerária, se lança.