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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: O que fez Bolsonaro se calar o faz explodir

Vera Magalhães

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O mesmo assunto que fez Jair Bolsonaro se calar nos últimos meses e submergir, depois de sucessivos episódios de arroubos físicos e retóricos e ameaças às instituições e a imprensa foi responsável por sua explosão de violência neste domingo direcionada a um jornalista. Trata-se do caso Fabrício Queiroz, o grande, enorme calcanhar de aquiles de toda a família Bolsonaro.

A pergunta feita pelo jornalista ao presidente que dava uma voltinha típica de candidato pela capital federal não foi banal nem acessória: o que, afinal, explica 21 depósitos da família de Queiroz na conta de Michelle Bolsonaro? Não era a única possível concernente ao caso que envolve rachadinha do gabinete do filho ex-deputado estadual e hoje senador, Flávio.

Por que, afinal, Queiroz fez depósitos regulares na conta do ex-chefe?

Por que os funcionários do gabinete de Flávio depositavam a maior parte de seus salários na conta de Flávio?

Por que Queiroz pagava em dinheiro prestações do patrão?

Nenhuma pergunta que seja feita por um jornalista, das mais necessárias, como todas essas, à mais impertinente que fosse autoriza um presidente da República a responder da maneira como Bolsonaro o fez, ameaçando “encher de porrada” a boca do profissional.

Esse tipo de arroubo não é exceção nem é um deslize de Bolsonaro. Trata-se de seu comportamento como homem público desde sempre: foi dessa maneira que já ameaçou jornalistas e deputadas ao longo da vida parlamentar, e que autorizava sua claque insandecida a agredir os repórteres que cobriam aquele show de horrores do Palácio da Alvorada.

O que aconteceu é que a prisão de Queiroz e o cheiro do impeachment que estava forte em junho levaram Bolsonaro a se recolher e fingir um republicanismo que não tem nem nunca terá. E a soltura do homem-bomba e sua ligeira subida na pesquisa o deixaram à vontade para voltar a exibir as garras autoritárias.

Não sei quantas vezes já escrevi, hoje mesmo na minha coluna no Estadão: Bolsonaro investe diuturnamente, por ações, por omissão e em declarações contra os pilares democráticos, entre eles o da liberdade de imprensa. Tratar isso como algo menor ou um detalhe só faz com que ele corroa a institucionalidade nacional mais e mais a cada dia.

Cabe aos jornalistas que cobrem o dia a dia da Presidência repetir todos os dias daqui por diante a pergunta que ensejou o chilique de Bolsonaro. Afinal, um presidente que não sabe explicar depósitos na conta da mulher está maculado por aquilo que Bolsonaro usou nos adversários como mais um biombo para se eleger: a suspeita de corrupção.