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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Na ONU, Bolsonaro prefere falar aos seus

Vera Magalhães

O discurso de Jair Bolsonaro na 74ª Assembleia-Geral da ONU foi tudo, menos conciliador. Falharam os auxiliares que subsidiaram o presidente de dados e passaram a nós, jornalistas, antecipadamente, a ideia de que o presidente brasileiro tentaria dissipar a imagem ruim que seu governo tem no exterior. Falhamos nós em acreditar que Bolsonaro seria outro que não ele mesmo neste palco global. Diante do mundo, Bolsonaro preferiu falar aos seus, aos convertidos, e manter sua postura de confronto com tudo e todos os que não pensam como ele, de países a grupos políticos, passando por instituições como a própria ONU.

O presidente da República, Jair Bolsonaro, discursa na abertura da 74ª Assembleia-Geral da ONU

O presidente Jair Bolsonaro discursa na 74ª Assembleia-Geral da ONU. Foto: Reprodução/ONU

Foram 31 minutos de bordoadas e caneladas. Em vez de começar falando do Brasil e tentando mostrar o que seu governo fez, abriu a fala com uma cara de Guerra Fria, falando de “agentes cubanos”, do Mais Médicos, da Venezuela e fazendo uma defesa da ditadura militar brasileira. Um pé nos anos 1960, outro nos 1970.

Num tom marcial, em timbre alto e apertando os olhos para ler o teleprompter, Bolsonaro comeu pedaços de palavras, errou pronúncias, afetando o nervosismo com a situação. A postura corporal do presidente foi sempre retesada, na defensiva. Não sorriu uma única vez.

Levou uma líder indígena, Ysani Kalapalo, na delegação brasileira, leu a carta de outra e incluiu o Cacique Raoni entre os inimigos da Pátria, o que deve ter causado perplexidade à plateia, pelo caráter para lá de exótico dessa mistura de paternalismo branco e postura, aí sim, colonizadora, ao usar um pedaço enorme do discurso para defender sem meias palavras o extrativismo mineral em reservas indígenas.

A defesa da soberania brasileira sobre a Amazônia, que auxiliares pretendiam que fosse feita com razoabilidade e dentro da melhor prática de diplomacia internacional ganhou contornos de bravata ideológica na fala de Bolsonaro, que tretou com a França de novo, acusou a imprensa internacional de promover “sensacionalismo” e não se furtou em apontar interesses escusos na preocupação internacional com a devastação da floresta.

“É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da Humanidade, e um equívoco, como atestam os cientistas, dizer que a nossa Amazônia é o pulmão do mundo”, esbravejou, para em seguida repudiar o “ambientalismo radical” e o “indigenismo atrasado”, bem como o “colonialismo”, mais um termo saído direto do túnel do tempo.

Bolsonaro foi breve em relação ao comércio global e à abertura do País ao exterior, tema que teve menos destaque que o confronto na área ambiental e a crítica às ditaduras de esquerda como forma de estabelecer o contraponto com a democracia brasileira.

No front interno, o presidente não deixou de fora seus inimigos usuais: o PT e a esquerda e a imprensa, que chegou a dizer que foi em parte “comprada” pelos governos petistas.

O fecho foi a parte mais desbragadamente ideológica da fala: Bolsonaro se pôs a tecer considerações sobre perseguição religiosa –a “cristãos e outros”– e à maneira como, segundo sua narrativa, o tal marxismo cultural tomou escolas, universidades e famílias para capturar as mentes dos jovens e lhes tirar até a mais essencial identidade, a “biológica”, levando a conversa da tal ideologia de gênero, inacreditavelmente, à abertura da Assembleia-Geral da ONU.

Com menções à facada de que foi vítima e ao famoso versículo bíblico que cita a cada fala, Bolsonaro deixou claro que seu público não eram os chefes de Estado, que reagiram a sua fala com aplausos tímidos e esparsos, mas seus convertidos em solo brasileiro. Aqueles que aplaudem cada “mitada” do “capitão” desde a campanha.

Para fora, ele tratou de confirmar a caricatura que se faz dele, essa contra a qual pretendia se insurgir.