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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: os Bolsonaro e os ‘amigos’

Vera Magalhães

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Flávio Bolsonaro trocou recentemente de advogado. É difícil imaginar que seu novo defensor tenha concordado e achado que seria uma boa estratégia a entrevista que seu cliente concedeu ao jornal O Globo. Mas como ele diz que não sabia que o advogado anterior, Frederick Wassef, abrigou por um ano seu ex-faz-tudo, Fabrício Queiroz, na própria casa, vamos admitir que tudo é possível, não é mesmo?

Flávio Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto, em junho. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Nessa família, mais que em outras. É possível, segundo Flávio, que um policial militar amigo pague uma prestação de R$ 16,5 mil de um apartamento para que o então senador eleito não tivesse de sair do churrasco da comemoração de sua vitória. Afinal, quem nunca teve um amigo assim tão prestativo, não é mesmo? E que PM não tem essa quantia na conta, para pagar um boleto por um aplicativo, não é mesmo? E qual o problema de depois o mesmo PM ter sido ressarcido em espécie, como Diego Sodré de Costa Ambrósio diz ter sido? E que essa movimentação financeira não tenha compatibilidade com os rendimentos oficiais do policial, não é mesmo?

Muita injustiça com o PM, se queixa o 01. Policial militar este que, de acordo com o senador, é empresário e não vive de seu salário na corporação.

Queiroz também era um desses amigões que só a família Bolsonaro tem. Amigo que coloca outdoor para o presidente de graça em plena pandemia, que paga R$ 120 mil de plano de saúde do chefe, que movimenta dinheiro do gabinete inteiro e o chefe não sabe. Apesar dessa amizade toda, Flávio não sabia onde Queiroz estava, que isso não é coisa que amigo conte.

Em resumo: a entrevista de Flávio não resiste a duas checagens de imprensa (por exemplo: a subcontratação de funcionários que ele confessa é proibida pela Assembleia do Rio) e fornece munição farta para o Ministério Público embasar suas investigações.

Politicamente mostra um senador despreparado para encarar uma investigação, pueril ao se vitimizar e absolutamente incapaz de evoluir no discurso para além da repetição automática do que o pai fala — sobre Sérgio Moro, sobre Bolsa Família, retomada de obras, qualquer assunto.

Mas o importante nisso tudo é ter amigos de verdade. E, nisso, a família Bolsonaro não tem do que se queixar.