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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Os dois pesos e duas medidas de Mourão

Vera Magalhães

A forma como o vice-presidente Hamilton Mourão categoriza recentes manifestações contra e a favor do governo em seu segundo artigo sobre a conjuntura política brasileira no Estadão em duas semanas denota dois pesos e duas medidas do general na análise de como o presidente Jair Bolsonaro e seu governo e a oposição, do outro lado, atuam no atual momento do País.

Dois pesos e duas medidas nunca são um bom ponto de partida para análise política. Quando partem de um vice-presidente da República no momento em que o titular está sob questionamento e a própria chapa presidencial pode enfrentar problemas na Justiça Eleitoral é um pouco mais preocupante.

Para Mourão, manifestantes que tomaram as ruas em São Paulo no domingo e em Curitiba na segunda-feira são baderneiros, ligados a movimentos extremistas internacionais, dispostos a incendiar as ruas do País a partir de uma insensata “extrapolação” de declarações do presidente e de seus apoiadores. Seriam “incensados” irresponsavelmente pela imprensa e pela oposição, com o claro objetivo de desestabilizar o governo e “importar” para o Brasil conflitos de outros países, como os raciais, que nada têm a ver conosco, uma vez que teríamos uma tradição de cordialidade racial. Esses manifestantes, diz Mourão, devem ser conduzidos “debaixo de vara” aos tribunais, sob força da lei e da ordem.

Ainda na análise que faz das críticas ao governo, diz o general que não é “razoável” comparar o momento atual com a ditadura, que ele chama de regime, que se encerrou há 35 anos, e que também seria uma fantasia dizer que as Forças Armadas hoje exercem poder político, a despeito da quantidade de patentes em cargos de livre nomeação, do primeiro ao quinto escalão da administração direta e indireta.

Já os abusos de Bolsonaro e suas investidas contra os Poderes, a imprensa, as liberdades e as instituições seriam “exageros”, e as mensagens claramente golpistas presentes em atos governistas seriam “retóricos impensadamente lançados contra as instituições do Congresso e do Supremo Tribunal Federal”.

Vamos aos pesos e medidas. Os atos da oposição são recentes e, até aqui, se contam em dois dedos de uma mão. O de São Paulo, de fato, começou pacífico, e só descambou para a violência depois que bolsonaristas foram confrontar os torcedores organizados. Concordo com Mourão que há de se colocar em dúvida intenções democráticas por parte de torcidas organizadas historicamente associadas à violência e ao vandalismo, mas daí a ver apenas nos que são contrários ao governo a explicação para a depredação é fazer o que acusa os “sessentões e setentões”, sua geração, aliás, de fazer.

Já os atos que pedem intervenção militar e fechamento do Congresso e do STF acontecem semanalmente desde março, com a participação presencial do presidente da República e de ministros, inclusive militares, seja abrindo as portas dos palácios para eles ou usando bens públicos, como carros e helicópteros, para prestigiá-los e registrá-los. As palavras usadas nesses atos não são “impensadas”, e refletem por parte dos apoiadores de Bolsonaro o desejo de reviver a ditadura que Mourão aponta na imprensa e em ministros do STF, que apenas registram e contextualizam os fatos, no caso do jornalismo, e reagem e exercem seu poder de freios e contrapesos, no do Judiciário.

O mais preocupante do texto de Mourão é que ele use os protestos que começam a pipocar no País como pretexto para reações mais duras por parte do governo. Essa intenção permeia todo o artigo e fica patente quando ele diz que “a prosseguir a insensatez, poderá haver quem pense estar ocorrendo uma extrapolação das declarações do presidente da República ou de seus apoiadores para justificar ataques à institucionalidade do País”.

Os ataques acontecem, e partem sobretudo do presidente e seus apoiadores. Querer inverter a narrativa, como a justificar medidas autoritárias de Bolsonaro, é grave e perigoso.