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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Os números não baixam? Afrouxamos os critérios

Vera Magalhães

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O casal de comunicadores Leon Martins e Nilce Moretto tem um canal de muito sucesso no YouTube chamado Gambiarra a Gente Aceita. Poderiam emprestar a marca para batizar a revisão do plano de abertura das atividades do governo de São Paulo, anunciada nesta segunda-feira?

Coletiva do governo de São Paulo nesta segunda, quando o governador João Doria anunciou a mudança de critério no plano

Coletiva do governo de São Paulo nesta segunda, quando o governador João Doria anunciou a mudança do critério de flexibilização Foto: Governo do Estado de São Paulo

Os números teimam em não baixar ao que preceituava o Plano São Paulo? O verde nunca chegava, e algumas regiões insistiam em ficar no vermelho? Simples! Eleve-se de 60% para 75% o percentual mínimo de ocupação de leitos hospitalares e: pinte de verde o que antes estava amarelo, de laranja o que estava vermelho, e assim por diante.

A gambiarra do governo paulista equivale a admitir que 15 pessoas a mais ocupem por vez um hospital de 100 leitos. Haja saliva para explicar tamanha concessão, de todo arbitrária e sem amparo em protocolos científicos, no afã de atender à pressão econômica pela abertura mais acelerada.

Não tem sentido construir um plano, passar semanas dando coletivas para radiografar o cumprimento desse plano e, quando ele não atende a suas expectativas, rasgar o plano e anunciar outro. Para um Estado cujo governador, João Doria Jr., age desde o início da pandemia para tentar se diferenciar de Jair Bolsonaro e sustentar que toma suas decisões amparado em dados e evidências, nada mais desastroso.

Se a justificativa para a mudança de critérios é que a cidade de São Paulo quer voltar a realizar cirurgias eletivas e não podia porque estava com ocupação em torno de 66%, melhor seria baixar uma portaria autorizando a realização desse tipo de procedimento desde que haja vagas e equipes disponíveis, deixando o resto do Estado dentro do critério previamente estabelecido — pelo próprio Estado, aliás.

Lembrando que a mudança de cores implica numa série de atividades que podem voltar a funcionar, uma miríade delas, não apenas a realização de procedimentos cirúrgicos.

João Gabbardo, o coordenador do comitê do Estado e ex-auxiliar de Luiz Mandetta no Ministério da Saúde, disse que é “muito ruim” quando uma região ou cidade evolui de fase e depois tem de retroceder. Ora, mas isso só acontece quando a abertura leva a um aumento de casos e internações, o que é indicativo, aqui e no mundo todo, de que o vírus segue sem controle e disseminado na população.

Justificativas tiradas da cartola para problemas que deveriam ser pautados unicamente por critérios sanitários são a explicação para o Brasil estar num eterno pico da pandemia, um platô no auge do qual não se tem ideia de quando sairemos. Se Jair Bolsonaro contribuiu imensamente para nos trazer até aqui, governadores e prefeitos parecem ter cansado da subida e resolveram descansar no topo da montanha, arriando mochilas e equipamentos.

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