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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: os recados do artigo de Mourão

Vera Magalhães

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Hamilton Mourão, em seu artigo sobre os erros do Brasil no Estadão desta quinta-feira, 14, se concentrou nos erros alheios e omitiu todos os do seu parceiro de chapa, Jair Bolsonaro. Quis, assim, evitar voltar à mira de Carlos Bolsonaro e da tropa bolsonarista, sempre pronta a ver traidores por toda a parte.

O vice-presidente Hamilton Mourão

O vice-presidente Hamilton Mourão Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Mas há recados subliminares claros no texto em que o vice-presidente procura concordar com o presidente, mas inexoravelmente se mostra em tudo diferente dele.

Ao criticar a polarização e a radicalização do debate, que impedem que se converse e se tente uma saída articulada entre Poderes e entre instâncias de governo para uma crise que é múltipla, Mourão toca no nervo central do caos bolsonarista. A frase de que nenhum País tem feito tanto mal a si mesmo na crise quanto o Brasil, que depois ele tenta creditar aos governadores, à tentativa de “usurpação” de prerrogativas do Executivo pelo Judiciário, à imprensa e à oposição, é endereçada, na ótica de quem lê, primeiro ao presidente e sua coleção de atos e palavras amalucados ao longo da crise.

Ao publicar seu texto no Estadão no dia seguinte em que o jornal conseguiu uma vitória no STF para que Bolsonaro tivesse de mostrar seus exames para covid-19, Mourão já conseguiu atiçar as teorias da conspiração bolsonaristas, por mais que tente se mostrar condescendente com o presidente ao longo do texto.

E ao propor diálogo com a imprensa, com os Poderes e com a oposição quando Bolsonaro dia sim, outro também cria confusões com todos esses atores, o vice automaticamente se mostra como alguém de cepa diferente da do capitão titular da chapa eleita em 2018, ainda que partilhe de valores e visões de mundo semelhantes às dele — o que Mourão deixa claro no texto como tentativa de mostrar lealdade, mas também de acenar aos setores que se desgostam com o estilo espalha-brasa de Bolsonaro, mas ainda apoiam as diretrizes econômicas e ideológicas do governo.

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