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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Para Salles, não há problema na Amazônia

Vera Magalhães

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Para o ministro Ricardo Salles, o problema da Amazônia se resume a ruídos de comunicação. Não fosse uma falácia absurda, que os números e os dados teimam em desmentir, só essa repetição já seria motivo de sobra para trocar de ministro do Meio Ambiente. Afinal, o que Salles mais faz desde que assumiu a pasta é dar entrevistas.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles Foto: Susana Vera/Reuters

Nelas, abusa de termos vazios de significado, de frases supostamente alinhadas com o setor privado, mas que não colam mais nem nesse segmento. Porque os empresários estão perdendo negócios graças ao blablablá do ministro, aliado à sua política de perseguição a quem alerta para a devastação da floresta e tenta contê-la.

Em nova entrevista ao Estadão, o ministro do Meio Ambiente já não tenta negar que a floresta esteja queimando e sendo derrubada. Não fala em punir quem faz isso nem em aumentar a fiscalização (que, segundo sucessivos relatos, na verdade, ele vem reduzindo, quando não perseguindo fiscais que insistem em tentar fazer seu trabalho direito, apesar da falta de condições políticas e materiais para isso).

Mas insiste em regularização fundiária, exploração da floresta e, aí sim, “premiar” quem tem, segundo sua régua, boas práticas ambientais. Vamos ver se entendi: nada de multar quem devasta, mas vale usar verba pública para transferir quem simplesmente cumpre a lei? Legal essa noção de Estado eficiente e “parceria” entre setor público e privado do ministro Salles.

O ministro quer ser moderno, mas insiste na visão tacanha de que estrangeiro não tem de dar pitaco sobre a Amazônia. Faz isso com ar meio blasé, dizendo que a eles falta informação. Como se não houvesse satélites rastreando cada palmo da floresta, e investidores, nações e organizações internacionais não recebessem relatórios pormenorizados em bases diárias a respeito da devastação da floresta.

Por uma razão muito simples, que Salles, Jair Bolsonaro e a maioria do governo ou não entende ou finge não entender: a floresta já vale mais preservada do que destruída, jargão que ele empresta de Marina Silva na entrevista tentando afetar ares de grande descoberta de um gestor antenado.

E é por isso que o Brasil já está perdendo dinheiro, seja em exportações, em fundos internacionais a que perde acesso ou em novos investimentos: porque viramos aos olhos do mundo um pária cujo governo tomou uma atitude deliberada de devastar a floresta para promover garimpo, expandir plantações, regularizar grilagem, explorar minérios, perseguir índios e fechar os olhos ao trabalho de madeireiros clandestinos.

A permanência de Salles e de sua conversa mole sem um único dado que a embase só vão reforçar essa imagem perante um mundo muito mais informado que o ministro e acentuar nossa marcha batida ao fim da fila entre os países dignos de receber investimentos ou de fechar acordos internacionais com outras nações ou blocos de países.