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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: PIB? Reformas? Coronavírus? Não, anúncios na mídia

Vera Magalhães

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Um dia depois de promover o já clássico espetáculo humorístico na porta do Alvorada, Jair Bolsonaro se encontrou com a nata do PIB brasileiro na Fiesp, bunker neoaliado do presidente na avenida Paulista.

Também foi um dia depois do anúncio do crescimento de 2019, que ficou em 1,1%, aquém das projeções otimistas do segundo semestre do ano passado, e que jogou uma sombra de pessimismo também para as previsões para 2020.

O presidente Jair Bolsonaro, ministros do governo e o presidente da Fiesp, Paulo Skaf no evento desta quinta

O presidente Jair Bolsonaro, ministros do governo e o presidente da Fiesp, Paulo Skaf no evento desta quinta Foto: Alan Santos/PR

Chamou a atenção de alguns presentes ao encontro a fala confusa de Paulo Guedes para explicar os dados do crescimento, eximindo sua gestão de qualquer responsabilidade depois de prometer mundos e fundos logo na estreia, e também a completa dissociação do presidente em relação aos temas que preocupam de verdade o mercado.

Em meio ao surto do novo coronavírus — que abate as exportações, acomete várias regiões do mundo com intensidade ainda não completamente mapeável e começa a crescer de grão em grão no Brasil — ao PIBinho e aos sucessivos adiamentos no envio da segunda leva de reformas ao Congresso, o presidente preferiu dedicar encontro tão representativo a repisar sua pauta anti-imprensa.

Como já adiantara, pediu aos empresários que não anunciem em veículos críticos ao governo, como se isso fosse saída para os problemas políticos gerados todo dia por ele e seu governo ou econômicos enfrentados pelo País.

As reações de participantes da reunião ao BR Político ficaram entre a ironia condescendente e o ceticismo envergonhado. Para alguns desses interlocutores, Bolsonaro e Guedes não parecem perceber que a janela aberta com a aprovação da reforma da Previdência vai se fechando à medida que o ano avança e os prazos estreitam.

Aquela boa vontade que havia com as trapalhadas ideológicas e políticas do governo se esvai diante da constatação de que elas impactam diretamente a capacidade de negociação com o Congresso, e acometem inclusive o antes intocável Paulo Guedes.

É sintomático que no dia em que o presidente e seu principal ministro se reúnem com a nata do empresariado e do setor financeiro do Brasil o dólar bata em R$ 4,67 e feche a R$ 4,65: a confiança já é moeda em escassez no Brasil.