Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Porta-voz faz briefing vazio para tentar dissipar desgaste de Bolsonaro

Vera Magalhães

Exclusivo para assinantes

O general Otávio do Rêgo Barros promoveu um briefing para a imprensa para fazer enunciados de ordem genérica sobre os afazeres de cada um dos órgãos e ministérios do governo na crise do novo coronavírus. Ele não anunciou nenhuma medida concreta, se recusou a responder qualquer pergunta mais específica e ainda vetou bruscamente um questionamento sobre a ida de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, onde teve contado com 272 pessoas, mesmo tendo feito teste para o novo coronavírus.

O porta-voz da Presidência, Otávio do Rego Barros, nesta terça

O porta-voz da Presidência, Otávio do Rego Barros, nesta terça Foto: Reprodução/TV BrasilGov

A cada pergunta de ordem mais técnica sobre combate à pandemia ou às medidas econômicas para que sejam atenuadas, o porta-voz recomendava que ela fosse redirecionada ao órgão competente. Disse, ainda assim, que fará esse tipo de briefing diariamente, a partir de reunião também diária dos ministérios para tratar do assunto.

O objetivo da entrada em cena, de forma claramente improvisada e embaraçada, do porta-voz, que andava escanteado na estrutura de comunicação do Planalto, é tentar reverter a péssima imagem passada por Bolsonaro no fim de semana e até esta terça-feira, ao insistir em se expor e expor cidadãos ao contágio, desrespeitando a recomendação de isolamento, e chamando reiteradas vezes a pandemia de coronavírus de “histeria”.

A mudança de estratégia coincide com a primeira morte no Brasil pelo novo coronavírus e com a existência de outros óbitos cuja relação com a pandemia ainda não está confirmada. Também vem no momento em que o espelho de Bolsonaro, Donald Trump, mudou radicalmente seu enfoque quanto à pandemia, protagonizando ele mesmo entrevistas diárias ao lado de especialistas e assessores e apertando as restrições à circulação social.

Ainda assim, Rêgo Barros evitou chamar a pandemia de emergência e recomendar a quarentena voluntária para todos. Disse que as medidas ainda estão em evolução, e que o “evento” da pandemia “já está em nossa casa”.

Ao puxar para o Palácio do Planalto a comunicação a respeito da pandemia, Bolsonaro também procura retirar o protagonismo do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e dissipar a constatação de que os Poderes resolveram escantear o presidente das medidas práticas de enfrentamento da crise, como ficou evidente na reunião do ministro com outras autoridades e a coletiva de Paulo Guedes quanto às medidas econômicas, nas quais Bolsonaro foi uma ausência celebrada.

Enquanto tudo isso evoluía, o presidente demonstrava incômodo com os elogios a Mandetta e pensava em realizar uma festa de aniversário no fim de semana, como anunciou ainda nesta terça a uma rádio.

Se for mesmo fazer contatos diários com a imprensa sobre uma crise que requer precisão e técnica na comunicação, o general Rêgo Barros vai precisar de muito mais que “paz e bem”, como desejou aos repórteres ao se despedir depois de poucos canhestros minutos de nenhuma informação.

Desta forma que foi feito, seu briefing serviu apenas para evidenciar o que pretendia esconder: o despreparo da maior parte do governo para tratar do coronavírus e que o Ministério da Saúde está há anos-luz do resto em termos de preparo e estofo. Mas sempre pode piorar, se Bolsonaro resolver mimetizar Trump e participar pessoalmente desses comunicados.

Ainda bem que Mandetta manterá as entrevistas diárias. E as fará de forma virtual, atendendo as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Só assim se terá informações científicas e seguras para uma população que está confinada e assustada.