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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Recuo comprova erro da abertura prematura em SP

Vera Magalhães

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O recuo do governador João Doria Jr. e do prefeito Bruno Covas e os números alarmantes da covid-19 no Estado nas últimas 24 horas comprovam de forma irrefutável, e da pior maneira, o que dissemos aqui no BRP no primeiro momento do anúncio da tal reabertura “responsável”: que ela era, na verdade, prematura e sem embasamento em dados e em ciência.

A capital é o epicentro do coronavírus no Estado Foto: Felipe Rau/Estadão

A capital é o epicentro do coronavírus no Estado Foto: Felipe Rau/Estadão

Nenhum País que fez a reabertura antes que o número de casos e de mortes começasse a ceder conseguiu sustentar a decisão ou colheu algum benefício. São Paulo, que procurou ser um contraponto à postura do governo federal na pandemia, não poderia ter abandonado seu discurso pró-ciência pelo caminho para ceder a pressões econômicas, políticas e da opinião pública por uma reativação das atividades econômicas quando todas as evidências médicas e científicas ainda recomendavam mais isolamento, e não menos.

Nunca se chegou ao nível de 70% de distanciamento social fixado pelo próprio governo paulista como ideal. Com o anúncio de que a vida voltaria praticamente ao “normal” nesta semana, até com a reabertura de shopping centers (!) na capital, foi o sinal verde para que as pessoas saíssem às ruas não só no interior e na capital, mas inclusive na Grande SP e no litoral, que não haviam sido incluídos na primeira leva de liberações.

Agora Doria e Covas têm de recuar, com mais prejuízo político do que teriam se tivessem mantido o discurso responsável do início da crise. Governantes que sustentaram a posição dura, mas necessária, como o governador de Nova York, Andrew Cuomo, a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, e outros, agora colhem crescimento de sua imagem local e internacionalmente.

Era óbvio que, a insistir na reabertura sem amparo em dados, São Paulo iria ver seu sistema de saúde colapsar, jogando fora o eficiente planejamento feito em ampliação de leitos, construção de hospitais de campanha e monitoramento das redes privada e pública. Agora, com o adiamento da extemporânea reabertura, ainda há tempo para recalibrar o discurso e fazer um (mais difícil) trabalho psicológico de (re)convencimento da população da necessidade de ficar em casa.

Afinal, se o prefeito e o governador disseram que se poderia ir ao shopping a partir desta semana, como convencer pessoas que naturalmente estão saturadas, além de desgovernadas, desalentadas, sem dinheiro e confusas com a falta de direção clara por parte dos políticos, a retomarem uma quarentena que já foi avacalhada?