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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Regina não precisava, e a Cultura não merecia

Vera Magalhães

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É impossível assistir até o final o vídeo em que um Jair Bolsonaro fanfarrão e uma Regina Duarte agradecida (pelo quê?) comemoram no Palácio da Alvorada o “presente” que a agora ex-secretária Nacional de Cultura recebeu: a demissão do cargo pouco mais de dois meses depois que assumiu.

A atriz Regina Duarte e o presidente Jair Bolsonaro

A atriz Regina Duarte e o presidente Jair Bolsonaro Foto: Dida Sampaio/Estadão

Tal qual seu personagem mais notório, a Viúva Porcina, Regina-ministra foi sem nunca ter sido. Já na posse, em que cometeu o inacreditável discurso que elevava à condição de manifestações artísticas do povo brasileiro o pão de queijo e o pum do palhaço, Regina começou seu processo de fritura em azeite de dendê.

Já ali Bolsonaro a advertiu de que não haveria carta branca. Já ali os olavettes levantavam a hashtag #ForaRegina, que não a abandonou um dia sequer em sua tão breve como vexatória passagem pela Cultura.

De lá para cá, Regina viu:

  • pessoas que nomeou serem “desnomeadas” por Bolsonaro;
  • pessoas que exonerou serem reconduzidas e depois despachadas de novo, como Dante Mantovani;
  • artistas pedirem que ela retirasse suas fotos de cartazes fakes de apoio;
  • artistas (os poucos) que a apoiavam debandarem, e um deles provavelmente tomar sua cadeira;
  • sua imagem ser moída na antológica entrevista à CNN.

Este é o saldo pessoal da incursão ministerial de Regina: a destruição absolutamente desnecessária de uma carreira de sucesso que ela havia levado décadas para construir, além da inviabilização, ao menos temporária, de uma reconstrução dessa carreira. Ganha o prêmio de consolação de cuidar da Cinemateca em São Paulo, sob a desculpa, também ela humilhante, de que estava “com saudades da família”.

E para a Cultura, qual o saldo? Pior ainda, inestimável. Se Regina não precisava fazer isso consigo mesma, a Cultura brasileira não merecia ser acometida pelo bolsolavismo. Já se vai um ano e meio de desmandos no setor cultural, que experimentava uma boa fase, com produções audiovisuais de excelente qualidade sendo premiadas aqui e no exterior e o fomento a uma indústria que gerava empregos, ajudava a divulgar as diferentes e heterogêneas manifestações culturais de um Brasil rico e plural e agora está paralisada, tomada de assalto por discussões ideológicas bizantinas e emburrecedoras.

Regina provavelmente será substituída por Mario Frias, um ex-ator de Malhação. Não se sabe nada que tenha feito de significativo com a própria carreira ou muito menos pela Cultura como um todo. Sua escolha é a prova mais cabal do desapreço que Bolsonaro nutre por tudo que cheire a conhecimento, cultura ou arte.

A Cultura é mais uma área, além da Educação, do Meio Ambiente, dos Direitos Humanos e da diplomacia, em que regredimos a passos largos todos os dias no atual governo. O Brasil vai se tornando aos olhos do mundo um pária global em áreas nas quais já foi referência, e a nossa riqueza cultural é com certeza uma delas.

Regina Duarte pode até se enlevar com o “presente” de grego que ganhou de um presidente que não faz nem questão de disfarçar o desprezo que sente por ela, tratando-a em tom de deboche nas redes sociais. Mas ela com certeza será cobrada pela História pelo imenso desserviço que prestou à área que tão generosamente a consagrou como atriz. Mais efêmera e desagradável que o pum do palhaço.