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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Remédio não é para ‘torcida’

Vera Magalhães

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A situação extrema de ansiedade, risco social e econômico e descompasso político provocada pela pandemia do novo coronavírus está levando ao surgimento de várias categorias excêntricas no debate público brasileiro. A mais recente foi bem batizada pela jornalista Madeleine Lacsko, da Gazeta do Povo, como a do “torcedor de remédio”. Isso quando a torcida não resvala descaradamente para o lobby, mesmo.

Antes de qualquer comprovação científica final, com publicação de estudos em publicações de renome internacional e com um protocolo unificado para que sejam ministradas, drogas como cloroquina, hidroxicloroquina, antirretrovirais e até os bons e velhos corticoides passaram a ser apontados nas redes sociais, separadamente ou em diferentes associações, como remédios capazes de fazer a pandemia de coronavírus retroceder, algo que não é tido como verdadeiro nem entre os médicos que estudam e até que defendem o uso dessas drogas.

Isso porque pessoas que não são médicas nem cientistas passaram a falar desses remédios afetando autoridade que não têm. Na cruzada, que tem o presidente Jair Bolsonaro à frente, as credenciais de médicos sérios passaram a ser evocadas. Esses têm defendido que a pressa em combater a covid-19 justifica a adoção de protocolos excepcionais, sem que haja todas as comprovações científicas exigidas em tempos e condições normais. Que sejam médicos a fazê-lo é compreensível, e mesmo esses enfrentam uma corrente contrária entre seus pares.

Que a torcida venha de políticos, militantes digitais ou lobistas é o que traz ao debate forte risco de levar à procura de uma população assustada por um mercado negro de remédios, se sujeitando aos riscos inerentes à automedicação com drogas cujos efeitos colaterais podem ser sérios, como deixa claro o próprio Ministério da Saúde.

A grita pró-cloroquina e seus associados foi tal que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deu uma declaração dúbia nesta terça. Para alguns, ampliou o protocolo de uso dos medicamentos, permitindo que sejam ministrados em qualquer fase de contaminação pelo Sars-Cov-2, desde que em ambiente hospitalar. Não foi o suficiente para os profetas da cloroquina, que querem o “libera geral”.

Este não é um debate para ser travado na base da gritaria em redes sociais nem da pressão no cangote do ministro. É um dos mais controversos e sérios de toda a complexa teia de decisões difíceis do combate à pandemia. Também não pode ser tratado como a salvação para a crise, passando a falsa impressão de que a cura virá fácil e se podem relaxar as demais recomendações, como a do isolamento social.

São esses os subtextos de tanta histeria cloroquínica. Que é, como quase todas as mistificações que têm nos tirado o foco das boas práticas na crise, insuflada por Jair Bolsonaro.