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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Salles fez passar a boiada, como anunciou

Vera Magalhães

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“Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas.” A frase, imortalizada pela gravação da funesta reunião do ministério de Jair Bolsonaro em 22 de abril, é do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, participa de reunião da Comissão de Meio Ambiente do Senado.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, participa de reunião da Comissão de Meio Ambiente do Senado. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Levantamento publicado nesta quarta-feira, 29, pela Folha, em parceria com o Instituto Talanoa, mostra que, num governo com dificuldade para implementar as promessas e os projetos, ao menos esse ministro cumpriu a risca o que profetizou. No período desde o início da pandemia, Salles publicou 195 atos no Diário Oficial, entre decretos, portarias, instruções normativas e outras providências. Trata-se de um número 12 vezes maior que o do mesmo período de 2019, o que mostra que ele aproveitou mesmo para “passar a boiada”.

O grave disso tudo é que ninguém esteja olhando, como ele cinicamente comemorou diante de uma equipe silente. Ainda mais quando o desmatamento na Amazônia come solto e já prejudica não só a imagem do Brasil no exterior, essa já carbonizada, mas exportações, acesso de empresas a fundos e novos investimentos no País quando se anunciam tentativas tão ambiciosas quanto irrealistas de privatizações e novas concessões na área de infraestrutura.

A permanência de Salles no governo é a corrosão diária e metódica, anunciada, de todo o arcabouço de proteção ambiental que foi construído ao longo de sucessivos governos e que poderia ser a base sobre a qual o Brasil construiria uma reputação mundial de exemplo de bioeconomia, tirando vantagens dessa condição, como já chegou a ocorrer em iniciativas como o Fundo Amazônia, dinheiro que Ricardo Salles fez questão de rasgar.