Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Sinais de incômodo nas Forças Armadas se avolumam

Vera Magalhães

Exclusivo para assinantes

Como eu escrevi aqui desde o início da semana, os generais podem até falar grosso com Gilmar Mendes em público, representar contra o ministro na Procuradoria-Geral da União, mas a verdade é uma só: ele acertou em cheio num nervo exposto nas Forças Armadas, que, desde então, só evidenciam a cada dia os sinais de desconforto com a associação entre seu papel institucional e as crises políticas do governo Jair Bolsonaro. Como se fosse possível dissociar uma coisa da outra.

O presidente Jair Bolsonaro esteve no Rio para acompanhar o velório do soldado Pedro Lucas Ferreira Chaves Foto: Wilton Júnior/Estadão

O general Eduardo Pazuello, pivô das críticas de Gilmar, deixa claro que gostaria de voltar para seu posto na Amazônia, embora diga que não pedirá para deixar o Ministério da Saúde, que ocupa interinamente há dois meses. Recado claro para Bolsonaro para que apresse a substituição.

Nesta semana novos estudos refutam qualquer papel da cloroquina e da hidroxicloroquina na cura ou na redução de letalidade da covid-19. Mas a assinatura de Pazuello está lá, num protocolo oficial único no mundo que recomenda o uso desses medicamentos desde o início, mesmo em casos leves da doença. Isso pode ser questionado a qualquer momento em organismos internacionais. O gasto do Exército com a produção em massa desses medicamentos também deveria ser motivo de atitude do Ministério Público da União e do Tribunal de Contas da União. Como não levar em conta que é de um general da ativa a assinatura a chancelar essa política totalmente desprovida de dados e evidências que a embase, que levou justamente a que dois ministros médicos pedissem demissão antes de Pazuello?

Da mesma maneira, a passagem para a reserva de outro ministro, o responsável pela articulação política Luiz Ramos, depois de mais de um ano ocupando um cargo na cozinha do Planalto sendo da ativa, mostra que os oficiais da ativa não estavam mais tolerando a mistura de papeis. Assim como Ramos, outros que ainda não estão na reserva devem ser pressionados a fazer o mesmo caminho.

Será suficiente para que as Forças Armadas sejam vistas como o principal papel de endosso às políticas de Bolsonaro? Dificilmente. Nem a distinção condescendente feita pelo vice Hamilton Mourão, de que Bolsonaro, como “capitão”, não chegou a galgar os postos de trabalho intelectual do Exército há de evitar que no futuro a história estude um dos períodos de maior participação política e de gestão dos militares, comparável à ditadura que eles mesmos comandaram por décadas antes da redemocratização e seu novo papel ditado pela Constituição de 1988.