Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Tudo errado na festinha Bolsonaro-Toffoli

Vera Magalhães

Nem a claque bolsonarista engoliu o encontro festivo deste sábado, que reuniu Jair Bolsonaro, Dias Toffoli, Davi Alcolumbre e o indicado pelo presidente ao STF para a vaga de Celso de Mello, Kassio Nunes. A gritaria dos bolsões bolsonaristas tem razões próprias, mas, de fato, está tudo errado no convescote.

Celso de Mello ainda não se aposentou. Na cadeira, tem ainda decisões cruciais a tomar. Ao receber a entourage do presidente, com o indicado a tiracolo, Toffoli, que nem é mais presidente do Supremo, desrespeita o decano e também seu sucessor no comando da Corte, Luiz Fux, que tem ficado vendido nas articulações para a sucessão no tribunal.

Toffoli e Bolsonaro abraçam em encontro que também reuniu Kassio Nunes, indicado ao STF, e Alcolumbre Foto: Reprodução CNN Brasil

Alcolumbre não tem absolutamente nada a fazer num encontro desta natureza, e sua presença na festinha para assistir a uma partida do Campeonato Brasileiro e elucubrar sabe-se lá o quê é escandalosa por pelo menos dois aspectos evidentes:

  1. ele já pôs em marcha uma articulação para dar um cavalo de pau na Constituição e se reeleger para o comando do Senado, e para isso precisará do apoio do STF, e é justamente com a ala de Toffoli e Mendes que conta;
  2. Kassio Nunes deverá ser sabatinado pelo Senado, Casa que ele preside, e sua presença numa festividade antes mesmo da formalização da indicação denota a disposição de agir internamente para facilitar a vida do magistrado piauiense na CCJ e no plenário.

Quanto ao absurdo do comportamento de Bolsonaro, é despiciendo comentar: trata-se do seu padrão habitual. Ele já disse que quer um amigo, um aliado, um companheiro de “tubaína” no STF, e não alguém que preencha os requisitos institucionais para ocupar a Suprema Corte do País: notório saber jurídico e reputação ilibada. “No tocante a isso daí” Bolsonaro não está nem aí.

O presidente quer na Corte alguém que alivie os múltiplos inquéritos a que ele, filhos e aliados respondem pelas inúmeras vezes em que atentaram contra instituições, divisão dos Poderes, a Constituição, o pacto federativo, o princípio da moralidade e da impessoalidade e sabe-se lá mais quantos artigos da Constituição.

Também almeja alguém que alivie para o filhote 01, Flávio, que está cada vez mais enrolado numa investigação, a das rachadinhas que mostram o desvio de recursos públicos para aumentar patrimônio da família toda, que ele quer que seja mantida no tapetão do Tribunal de Justiça do Rio. Isso também está no STF.

A turba bolsonarista nas redes sociais se revoltou com a foto do abraço fraterno do “Mito” em Toffoli, o “amigo do amigo do meu pai”, segundo Marcelo Odebrecht, ex-ministro de Lula colocado por ele no STF. O escândalo mostra a falta de o mínimo de escrutínio político desse pessoal: não é de hoje que Toffoli e Bolsonaro são parceiros. Foi o então presidente do Supremo que parou as investigações do Coaf para favorecer Flávio. A diferença é que, enquanto a brodagem ajudava só a família Bolsonaro, tudo bem.

O desespero agora é por perceber algo maior: que, para livrar a si e aos filhos, Bolsonaro talvez esteja disposto a concordar em melar toda a Lava Jato e limpar a barra até do arquiinimigo Lula. Pois é, bolsomínions, a realidade da política é dura. Pois não estão na mesma investigação, agora paralisada por Gilmar Mendes, o advogado dos Bolsonaro, Frederick Wassef, e o de Lula, Cristiano Zanin? Deve ter dado curto-circuito em muito robô.