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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Um emprego de alto risco

Vera Magalhães

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A demora em substituir Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde mostra que não será fácil para Jair Bolsonaro encontrar alguém que preencha todas as características que ele imagina para a vaga. Tratei disso na nossa newsletter #BRPoliticoAnalisa de ontem à noite, então vamos apenas rememorar:

  1. Ser a favor do relaxamento progressivo do isolamento social mesmo sem se saber qual o pico da pandemia e sem o Brasil ter testes em quantidade sequer mínima para fazer projeções;
  2. Ser defensor ou ao menos não fazer restrição do uso de cloroquina e hidroxicloroquina em todas as fases do tratamento de covid-19, mesmo antes de estudos seguros a respeito de sua eficácia;
  3. Ser médico e, de preferência, renomado, para tentar minimizar o desgaste de demitir Mandetta, que hoje é popular e bem avaliado;
  4. Ser de São Paulo, para estabelecer um contraponto com o governador João Doria Jr. no epicentro da pandemia no Brasil.

Outras bobagens ideológicas, como ser contra o aborto (!?) são citadas por aliados do presidente, mas não estão no job description principal.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta Foto: Dida Sampaio/Estadão

Além de preencher os requisitos, o candidato a ministro terá de montar uma equipe do zero em plena pandemia e lidar com a falta de coordenação entre as áreas do governo e com a insistência do presidente em desobedecer o isolamento social, desdenhar da gravidade da crise, brigar com os Estados, a OMS e outros países dos quais o Brasil depende para importar insumos e sabe-se lá mais quantos obstáculos.

Dificilmente um médico de fato conceituado aceitará assumir um pepino desses numa crise que não se sabe ao certo quando terminará e que ameaça dragar o currículo do escolhido na vala comum do bolsonarismo negacionista.

Bolsonaro já mostrou que não tem apreço pela biografia nem a reputação de nenhum dos seus aliados. Acaba de deixar vazar que nunca pensou no diligente Osmar Terra, que fez de tudo e mais um pouco para voltar a ser ministro depois de defenestrado da pasta da Cidadania, para o lugar de Mandetta.

Chega ao cúmulo de ir fazer fuzarca na padaria frequentada pelo ministro da Saúde só para fazer um campeonatinho de popularidade.

Assumir essa bucha de canhão parece tarefa para destemidos. Terra era um deles: abanando o braço à espera do convite que não virá. Só o ensaio ministerial já bastou para lhe arranhar para sempre a credibilidade. Que os sondados pensem duas vezes. E que os governadores, o Congresso e o Judiciário sigam segurando o rojão do País em meio ao caos.